“Empresas que fazem Planejamento Estratégico, não fazem nem uma coisa nem outra” – Henry Mintzberg (Rise and Fall of Strategic Planning, 1994)

Um grande mal entendido ocorre quando dizemos que Planejamento Orçamentário ou o Planejamento Estratégico tradicional das empresas são problemáticos: as pessoas imaginam que sem um Planejamento Orçamentário ou Estratégico haverá menos planejamento nas empresas, ou que planejamento não é importante para as empresas. De maneira alguma ! Esse pensamento é totalmente equivocado.

O fato de eliminarmos o Planejamento Estratégico significa justamente o oposto, ou seja, que as pessoas passarão a planejar muito mais. Esta é a realidade. Com um planejamento dinâmico eliminamos aquela ilusão de planejar a operação ou a estratégia para um futuro distante, algo que é restrito somente a algumas pessoas, durante um curto período de tempo, e cujo produto final não pode ser considerado um verdadeiro planejamento. Vamos analisar este processo:

Nos planejamentos tradicionais é importante se fazer uma Alocação Orçamentária, ou seja, baseado na meta financeira para o próximo período, temos que, no final deste ano determinar em quais projetos a empresa deve investir no ano seguinte. O problema é que, nenhuma empresa, por mais que tenha em seu staff bons astrólogos, pais de santo ou analistas financeiros e macro econômicos, consegue prever o futuro. Se conseguissem não teríamos as crises financeiras que já estão virando rotinas no mundo (2008, 2011 etc)…

Pois bem, como não é possível prever o futuro, simplesmente não há como planejar, porque planejamento exige conhecimento presente do ambiente onde se pretende desenvolver as ações. Se uma construtora vai construir um prédio, ela só poderá realizar o planejamento da obra se conhecer o terreno, a logística, a disponibilidade de materias, equipes, possíveis impactos climáticos, etc.. Nesse caso estamos falando de planejamento, ou seja, conhecemos bem o ambiente presente e estabelecemos como vamos agir.

No entanto, o que ocorre no Planejamento Estratégico ou Orçamentário tradicional não tem nada a ver com isso. Na verdade ocorre um exercício de conjecturas sobre o futuro onde se escolhe uma ou algumas destas conjecturas, desejos são negociados, e então é definida uma lista de intenções (ou de idéias interessantes) para serem executadas no futuro. Estas intenções se convertem imediatamente em metas fixas para o próximo ano (vinculadas a bônus e tudo mais). Ou seja, no planejamento estratégico e orçamentário, de fato, ocorre muito pouco planejamento. Praticamente nada… O que ocorre são discussões sobre pontos abstratos e ainda intangíveis relacionados ao futuro, sobre os quais são negociados interesses pessoais e, finalmente, definidas metas baseadas principalmente em tendências e extrapolações do passado. O produto final disso tudo (além das metas numéricas) é uma lista de intenções chamada de planos de ação. E pronto.

No processo de planejamento, as pessoas, e conseqüentemente a empresa, precisam planejar de verdade. Precisam, a qualquer momento que se fizer necessário, desenvolver análises e planejamentos muito criteriosos sobre o ambiente atual. Isso ocorre porque todos estão preocupados com o PRESENTE, com o que deve ser implementado ou executado HOJE para melhorar resultados ou para resolver problemas. E como existe esta necessidade de propor ou executar ações, projetos ou investimentos que são importantes HOJE, é fundamental maximizar a chance de acerto, o que torna crucial os processos de análise e planejamento criteriosos destas ações e projetos.

Esta é a grande diferença em se trabalhar focado no presente, e não em conjecturas sobre o que vai acontecer no futuro. Em relação ao presente nós sabemos, nós conhecemos o ambiente, e portanto, nós podemos analisar e planejar. As ações, projetos e investimentos que se fazem necessários para a empresa melhorar HOJE demandam, e muito, tanto análise como planejamento. O que vamos fazer em um futuro que nem mesmo sabemos se vai ser real, isso é somente intenção, não é planejamento (e é incrível como as empresas gastam tempo e dinheiro com isso…)

Por outro lado, estas análises e planejamentos criteriosos para realização de ações e projetos do PRESENTE são praticamente ignorados nos processos de Planejamentos Estratégicos e Orçamentários Tradicionais. Quando os orçamentos são executados, ou seja, no ano seguinte, as pessoas possuem duas grandes preocupações: primeiro, usar as verbas alocadas para aquelas intenções de projetos que já foram definidos (ou supostamente planejados) no ano anterior (pois caso não sejam utilizadas as verbas serão reduzidas), e segundo, manter dentro das metas estipuladas no ano anterior para garantirem seu bônus. Ou seja, as pessoas estão preocupadas em minimizar (fazer o mínimo necessário) para atender o que foi estipulado pelo planejamento do ano passado. Elas não estão nem um pouco focadas em analisar criteriosamente o ambiente atual ou mesmo planejar ações importantes para a empresa melhorar hoje, no presente. As pessoas trabalham como executoras do que foi estipulado no passado, e não como uma equipe preparadas para analisar e planejar ações diante dos desafios do presente.

Um dos maiores gurus de gestão e estratégia, Henry Mintzberg, critica abertamente toda este processo vinculado ao Planejamento Estratégico e Orçamentário Tradicional. Esta é uma de suas frases mais interessantes: “Empresas que fazem Planejamento Estratégico não fazem nem uma coisa e nem outra”… ou seja, Mintzberg está dizendo que, empresas que usam a ferramenta chamada Planejamento Estratégico, nem Planejam e nem possuem Estratégia… Forte isso não ? …

É que ter Estratégia significa estar preparado para o presente, fazendo o melhor a todo momento para obter o máximo de resultado independentemente de como o ambiente se apresenta… ou seja, ter estratégia é ser capaz de responder ao ambiente, de maximizar (fazer o máximo possível) independente da situação. Ter estratégia não têm nada a ver com minimizar (fazer o mínimo necessário) para atender um plano – que como vimos, é exatamente o que acontece nos processos de planejamento tradicionais.

E fazer Planejamento significa ter em mãos conhecimentos tangíveis do ambiente que nos permita realizar uma boa análise e um bom plano, para que possamos dar uma resposta mais efetiva, e realizar uma execução rápida de ações e projetos, sempre que estes se fizerem necessário. Se as empresas não possuem um processo sistemático para realizar estas boas análises e fazer bons planos, então que planejamento elas fazem?. Tomar decisões baseado em conjecturas sobre o futuro e negociação de desejos, e gerar uma lista de intenções de projetos para o ano que vem… isso não pode ser chamado de planejamento. Portanto, pensando bem, Mintzberg tem toda razão. Empresas que fazem planejamento estratégico, no final do dia, não possuem nem planejamento, e nem estratégia.

Por Renan Carvalho – trecho extraído do DVD (Curso BSC em Rede)