Praticamente dez entre cada dez consultores, empresários e gurus de gestão afirmam nas revistas e programas de TV, que o sucesso de um empreendimento depende do planejamento.

Apesar disso, costumo afirmar que uma empresa funciona muito melhor quando abre mão de fazer planejamento, e alguns me questionam com certa veemência quando digo isso. Vamos discutir um pouco mais esta minha afirmação para, quem sabe, chegarmos à conclusão de que ela não é tão esdrúxula assim como parece.

Primeiramente é preciso esclarecer que, quando me refiro a planejamento, não estou me referindo ao significado da palavra em si… mas sim, às premissas, ou à crença, que existe por trás destes tão difundidos modelos de planejamento que conhecemos.

Buscando a raiz destas premissas, descobrimos que tudo se resume a uma visão que preferimos (ou escolhemos, ou fomos condicionados) a ter do mundo, uma visão que pode ser mecânica ou orgânica. Ambas são corretas, porém, os condicionamentos recebidos nos fazem supervalorizar a visão mecânica, o que acaba distorcendo a realidade sobre a qual devemos exercer o planejamento. Este é o grande problema.

Quando planejamos com uma visão mecânica, nós começamos com (1) o estabelecimento de metas, então vamos para (2) a elaboração de um projeto, (3) a obtenção de recursos, e finalmente (4) a execução e controle do plano. Assim são planejados e executados a construção dos mecanismos (seres inanimados, ou máquinas). Carros, computadores, equipamentos mecânicos, elétricos, eletrônicos, casas.. etc., para todos eles nós estabelecemos uma meta numérica (por exemplo: em 50 dias quero produzir 20 artefatos de 15 cm por minuto), então engenhamos sobre esta meta (projetamos para ver como, matematicamente, conseguiremos alcançá-la), calculamos custos necessários para podermos financiar a construção, obtemos os recursos e então executamos, ou seja, construímos o que desejamos. E realmente, quanto mais bem elaborado for este processo de planejamento, mais bem construído será o mecanismo, e mais precisamente alcançaremos a meta desejada. Planejar e construir máquinas nos torna “gênios da lâmpada”, ou seja, fazemos com que seja possível transformar desejos em realidade, e acabamos sendo limitados somente pela disponibilidade de recursos (ou $$).

Até aí tudo bem… Porém, neste ponto aparece uma primeira grande dúvida para ser sanada: será que com organismos vivos o planejamento e execução funciona da mesma forma ? Bom, vamos imaginar um organismo vivo, por exemplo, uma goiabeira. Será que existe algum plano que podemos fazer, algum cálculo, algum projeto, para garantirmos que, ao plantarmos uma muda de goiabeira, em exatos 50 dias, consigamos colher de uma única vez, exatamente 20 goiabas com 12 centímetros de diâmetro e alto teor de açúcar ? A resposta é óbvia, não existe matemática que faça isso acontecer. Pode até vir a existir trabalhos genéticos, que podem durar décadas e ainda assim, sem nenhuma garantia de sucesso… Pois bem, isso quer dizer que, quando lidamos com organismos vivos, não adianta querermos aplicar a mesma lógica que aplicamos quando planejamos máquinas. Diante de organismos vivos, nós perdemos aquele poder de “gênios da lâmpada”, ou seja, não importa qual seja a nossa meta, o nosso desejo, e nem a quantidade de recursos que temos disponível, o desempenho do organismo vivo, no caso a produção de goiabas pela goiabeira, vai depender muito mais da própria goiabeira, do que de nós. Sabemos que ela irá produzir goiabas, mas não podemos prever exatamente quando, nem quantas, e nem de que tamanho elas serão. A única coisa que podemos fazer é procurar garantir todos os dias, que a goiabeira tenha o ambiente adequado para crescer de maneira saudável, no seu próprio ritmo. Portanto, no caso do organismo, nosso planejamento e execução está muito mais voltado para o presente, para garantir condições adequadas aqui e agora, e para aquilo que está ao nosso alcance fazer, ou seja, cuidar do ambiente mantendo níveis de umidade, matéria orgânica e luminosidade adequados e removendo ervas daninhas, sempre elas que surgirem. O resultado, ou a consequência, deste cuidado que tivermos com ela todos os dias, fará com que ela produza o máximo que tiver condições.

Com base nesta análise já podemos afirmar que existe sim uma GRANDE diferença entre o modelo de planejamento aplicado a mecanismos e o modelo de planejamento aplicado a organismos vivos. Esta grande diferença reside no nível de poder e controle que conseguimos exercer sobre cada sistema. No caso de uma máquina conseguimos exercer poder e controle total, pois podemos estabelecer a meta de antemão, e podemos também, matematicamente, calcular, projetar e executar o plano de maneira a atingir esta meta. Porém, no caso de organismos vivos, simplesmente não conseguimos exercer praticamente nenhum poder e controle, pois a realidade é que dependemos totalmente da vontade e da capacidade dos próprios organismos. O máximo que podemos fazer é exercer alguma influência sobre o ambiente do organismo (ou ainda, no caso de organismo humanos, sobre fatores psicológicos ou emocionais), mas nenhuma destas influências garantem que uma meta seja alcançada.

Pois bem, aí então vem a segunda grande dúvida, e esta eu vou deixar para que vocês reflitam: o que é uma empresa ? uma máquina, um ser inanimado, ou um organismo vivo ?

E os modelos de gestão, planejamento e controle que nos ensinam, eles partem do pressuposto que a empresa funciona como o quê? Como uma máquina, ou como um organismo vivo ?

Será que todos os planejamentos empresariais são executados com precisão e eficácia prometidos ? Será que todos os empresários têm o poder de “gênios da lâmpada”, ou seja, basta estabelecer metas, planejar e executar com eficácia que conseguirão alcançar o sucesso ? Será que é assim mesmo que os empreendimentos se desenvolvem ?

Bom, a conclusão que chegamos após anos de reflexões e discussões sobre estas perguntas foi a seguinte: empresas não são máquinas, são organismos vivos, porém, tradicionalmente, o empresário e os gestores se sentem imbuídos de mais poder e controle, quando partem da premissa (na maioria das vezes inconsciente) de que a empresa é sim uma máquina (e não um organismo vivo), e então buscam utilizar-se de modelos de planejamento e controle mecânicos para tentar garantir que metas estabelecidas possam ser alcançadas. A realidade é que, inúmeras outras variáveis (e não somente este planejamento mecânico), respondem por um relativo sucesso alcançado por uma quantidade mínima de empresas que aplicam esta visão mecânica. Qualquer estudo estatístico pode comprovar que grande maioria das empresas que aplicam modelos de planejamento tradicionais, não alcançam resultados esperados (de novo, porque existem muito mais variáveis nesta equação). Portanto, é uma grande ilusão comprar essa ideia de que planejamento responde por sucesso. Milhões de bilhetes de loteria são vendidos todos os dias com a promessa de deixar a pessoa milionária. Comprar modelos de sucesso de outros empresários ou consultores é a mesma coisa, ou seja, uma loteria.

E se empresas são organismos vivos, como planejá-las ? Bom, primeiramente as Empresas mais Orgânicas se autoreconhecem como organismos vivos, e buscam de se estabelecer de maneira cada vez mais saudável, como o tal. Para isso, tratam de ir eliminando todas as práticas e ferramentas mecânicas de seu modelo de organização. Porque estas ferramentas foram desenhadas para máquinas, e nunca deveriam ser aplicadas sobre um organismo vivo. Quando assim o são, certamente causam muito mais prejuízos do que benefícios, tanto para a organização como, principalmente, para o comportamento das pessoas que estão submetidas a estas ferramentas.

Em uma empresa mais Orgânica, na realidade, planeja-se muito mais. Porém, planeja-se organicamente, focado na melhoria do ambiente presente aqui e agora (e não na busca de uma expectativa futura) procurando garantir cada vez mais um ambiente adequado para as pessoas (e para a segurança psicológica e emocional delas), de maneira que estas, através de sua própria vontade e capacidade, busquem o máximo de seu desempenho, estando felizes.
Na empresa mais Orgânica não existe planejamento para alcançar metas numéricas futuras, existe planejamento para melhorar cada vez mais o ambiente de maneira que o organismo mantenha sempre um alto nível de desempenho. O resultado a ser obtido é uma possível consequência, e nunca uma meta.

Por isso continuo afirmando que uma empresa funciona muito melhor quando abandona o (modelo mecânico de) planejamento. Isso não é opinião, é lógica, basta analisarmos a fundo este tema, que chegamos a esta conclusão. Não é questão de planejar mais ou menos, é questão de planejar corretamente. O modelo mecânico é feito para máquinas, e uma empresa, apesar de insistirem em tratá-la como o tal, definitivamente, não é máquina. É um organismo vivo.