(ler no Medium)

Nesses tempos de crise econômica, aparecem muitos jargões, frases bonitas do tipo “Transforme problemas em oportunidades”, longos artigos e vídeos são elaborados enaltecendo aqueles que inovam e que criam. Histórias como as de Steve Jobs e até de Donald Trump aparecem como exemplos de sucesso que viram o ninguém enxergava, ou seja, foram muito criativos.

Mas será que nós, como sociedade, valorizamos realmente a criatividade ? Será que ser criativo, por si só, é válido para o reconhecimento de um ser humano ? Será que queremos, realmente, pessoas criativas ao nosso redor ? Por mais que eu tente (e é claro, generalizando por se tratar de uma maioria e não da totalidade) não consigo responder SIM para nenhuma dessas perguntas.

Todas as frases e histórias bonitas que destacam a criatividade soam muito mais como autoajuda do que como uma valorização efetiva desta virtude humana. Tais frases, vídeos e artigos parecem meramente motivacionais, ou seja, algo que nos entusiasma em um primeiro momento, mas que, ao longo do tempo, pouco ou nada se efetivam. São meros estimulantes paliativos, que não duram porque não fazem parte, e até mesmo vão contra, o conjunto de valores que a grande maioria das pessoas aceita como essenciais para suas vidas.

E quais seriam esses valores ? Bom, nossa sociedade parece enaltecer acima de tudo o conforto e a segurança (seja ela financeira, física ou patrimonial). A maioria dos cidadãos acorda todos os dias de manhã e persegue, de maneira quase obsessiva, as conquistas materiais, os mimos do corpo e da mente, o controle sobre o futuro, as maneiras de evitar que qualquer perda ou imprevisto indesejável aconteçam, e, caso aconteça, as garantias de que possam voltar o mais rapidamente possível ao mesmo padrão que estavam.

Parece que a grande prioridade de nossa sociedade e de nossas vidas é representada pelos verbos TER, ESTAR e SER. Geralmente traduzidos como ter RECURSOS, para estar ONDE QUERO no futuro, e então ser reconhecido como “UM RÓTULO”… Esses três verbos soam como ícones de uma cultura onde pessoas anseiam por aprovação e reconhecimento social — ou seja, pelas carências do ego… Nela verbos como CRIAR, COOPERAR, CONTRIBUIR e até mesmo VIVER, são relegados para níveis de prioridade bem mais baixos… A crença vigente nos diz que só devemos nos dedicar aos outros depois que tivermos o suficiente, depois que estivermos onde almejamos, e depois que nos tornarmos alguém. Caso contrário a prioridade é PRODUZIR e ADQUIRIR, pois só assim alcançaremos, ou manteremos, o status de TER, ESTAR e SER.

Os próprios jargões motivacionais de criatividade que surgem nos momentos de crise parecem possuir o real intuito de fazer com que as pessoas consigam o mais rápido possível sair desses momentos, ou seja, voltar para aquela situação de conforto e segurança que parece ameaçada pelos tempos turbulentos… Em nossa cultura, a Criatividade nada mais é do que um meio (entre vários outros). Um meio ao qual só precisamos recorrer se houver perigo que ameace nosso status (de ter, estar e ser), ou se houver uma oportunidade de subir a escala desse status .

Nossa cultura valoriza tão pouco a Criatividade, que inclusive a trata com desdém. Comumente a coloca como motivo de piada e gozação. Ou vocês nunca viram nas redes sociais fotos de soluções criativas criadas por pessoas desprovidas de recursos, que viralizam justamente por serem coisas “engraçadas” que “POBRE” faz? .. Só relembrando aqueles padrões estigmatizados com humor sarcástico pelo personagem Caco Antibes, do antigo programa global Sai de Baixo…. Ou seja, Criatividade no fundo é coisa de gente “pobre”, rico não precisa ser criativo porque rico pode comprar.

Este conceito, apesar do tom humorístico, na verdade está arraigado profundamente em nossa cultura capitalista, hierárquica e preconceituosa. E indo além, bem no fundo mesmo, Criatividade representa um risco para um sistema que quer manter esta cultura viva.

As pessoas mais criativas de nossa sociedade são rotuladas de imaturas, incapazes e irresponsáveis, e são tratadas como seres que precisam ser “Educados” e “Disciplinados” para se tornarem “Obedientes”. Isso mesmo, estamos falando de nossas Crianças… que inclusive carregam no próprio nome o verbo Criar.

Mas porque rotulamos, estigmatizamos e denegrimos tanto a Criatividade ? A resposta me parece simples, porque a Criatividade é muito perigosa !

Perigosa porque pessoas criativas podem descobrir que não precisam estar submetidas a sistemas ou hierarquias para viver, e podem inventar maneiras alternativas para se estabelecer no mundo. Pessoas criativas podem questionar aqueles valores que a sociedade tanto preza (ter, estar e ser), e podem descobrir que a vida faz muito mais sentido quando estão simplesmente vivendo, colaborando, criando… e criando porque é bom criar ! Sem nenhuma expectativa de aprovação ou reconhecimento por suas criações… Pessoas criativas podem descobrir que criar com outras pessoas criativas (co-criar) pode ser ainda melhor, ou seja, podem encontrar possibilidade de organizar comunidades criativas… Pessoas criativas podem colocar em risco todo o sistema econômico capitalista porque podem simplesmente descobrir alternativas muito mais interessantes para substituir o velho dueto “produzir e adquirir”… Pessoas criativas podem colocar em xeque todos os sistemas governamentais e corporativos porque podem descobrir que não precisam obedecer e nem seguir aquilo que se espera delas… Pessoas criativas podem colocar em risco as fronteiras entre países, as divisões de classes, os preconceitos, o desenho de mundo e de espaço que conhecemos, podem colocar em risco o poder daqueles que pensam que o possuem… Por isso tudo, e mais um pouco, criatividade é algo assustador que muitos fazem questão de mantê-la somente nos jargões da autoajuda… Pessoas que hoje desfrutam desse “poder” certamente não possuem o menor interesse de deixar que a criatividade comece a brotar na vida pessoas, e seguramente procuram evitar que isso aconteça.

Mas será que hoje, com o Google nos ajudando, precisamos continuar presos neste mundo de caixinhas ?.. Claro que não !! Precisamos sim cada vez mais, são destas pessoas criativas !! Se é que existe uma maneira de transformamos o mundo e os valores desta nossa sociedade, sabemos que só elas irão nos mostrar !!

Por isso Criatividade, seja Bem-vinda !!!

Está na hora de cada um de nós liberar a Criança que existe em nosso interior, e que foi abafada e reprimida durante muitos anos… Só assim poderemos nos tornar estas pessoas criativas que farão toda a diferença ! Já existem pessoas nesta caminhada, mas estão sozinhas, e estão clamando para que todos nós nos juntemos a elas.

E podemos sim começar a caminhada para nos aproximar cada vez mais delas… Para liberarmos também, a pessoa criativa que existe dentro de nós. Aqui vão algumas dicas pessoais, de coisas que todos podemos fazer já:

1 — Parar de dar tanto valor para conforto e segurança… Ambos mantém nossa criatividade aniquilada. Nada como desconforto e risco para liberar o melhor que existe em nós.

2 — Parar de comprar supérfluos. A sociedade, para manter e defender os seus valores (ter, estar e ser) nos convence a depender de muita coisa que no fundo não precisamos… Portanto é necessário começar a questionar, ou suspeitar, de qualquer coisa que necessitamos além de alimentos, higiene e abrigo, porque estas coisas podem não ser imprescindíveis. E podem estar tirando completamente a oportunidade de exercermos nossa criatividade.

3 — Parar de contratar serviços para fazer coisas que nós mesmos podemos fazer. Isso mesmo, colocar a “mão na massa” e fazer coisas muitas vezes desconfortáveis são grandes estímulos para pensarmos de maneira diferente.

4 — Fazer como o “pobre” das piadas, ou seja, construir nós mesmos as soluções alternativas mais econômicas, ao invés de simplesmente comprá-las.

5 — Parar de obedecer… Começar a deixar de fazer coisas que todos esperam que façamos. E f*** o julgamento social, afinal pra ter o direito e a competência para nos julgar, só vindo aqui e vivendo a nossa vida !

6 — Buscar resolver problemas curtindo o momento presente, curtindo a nossa própria capacidade, curtindo a nós mesmos. Sem expectativa de resultados futuros ou de reconhecimentos por isso.

A principal dica de todas é refletirmos sobre a realidade que vivemos, sobre os valores que esta sociedade nos impõe:

– No fundo não TEMOS nada, pois nada neste mundo efetivamente nos pertence. Tudo é emprestado e depois teremos que devolver de qualquer jeito (inclusive nossa vida).

– No fundo nós só ESTAMOS aqui e agora, ponto.

– E no fundo não SOMOS (e nem nunca seremos) nada além de um ser humano, assim como todos os outros sete bilhões que convivem conosco nesse planeta. Nem mais e nem menos do que nenhum deles.

Assim, se continuarmos perseguindo o TER, o ESTAR e o SER, estaremos perseguindo puras ilusões, que talvez nos manterão encarcerados em crenças, preconceitos, julgamentos, e que certamente nos causarão muito mais sofrimentos do que alegrias. E pior, manterão nossa criatividade trancafiada em algum porão profundo do nosso ser.

Portanto, se estamos aqui e agora, se não temos nada e se somos apenas um ser humano, vamos CRIAR… mesmo que estejamos um pouco enferrujados só precisamos começar, porque isso está em nosso DNA, é o que nossa espécie sabe fazer melhor !

 

Quer ouvir as discussões sobre esse assunto, confira aqui o episódio 37 de nosso Podcast  Felicidade no Trabalho cujo tema foi Criatividade.