Será que precisamos de mesmo de educação? Será que algum ser humano precisa? Ultimamente este termo assim como outros (como por exemplo civilização) tem me causado calafrios. Está me parecendo cada vez mais claro, que tais termos existem para contribuir com a construção e manutenção, em nós, seres humanos, de crenças sem muito fundamento, ou seja, de paradigmas, que perpetuam e mantém-se ativos como fonte de toda a desconexão humana: como diz o criador da Teoria U, Otto Scharmer, a desconexão com nós mesmos, a desconexão com os outros e a desconexão com a natureza.

Pode parecer uma percepção radical (principalmente para um pai de 4 crianças) mas não deixa de ser uma percepção muito presente em nossa realidade. Há muitos anos, minha principal atividade na vida tem sido a de DESEDUCAR adultos (além é claro da atividade de ser pai em tempo integral). DESEDUCAR significa “educar ao contrário”, ou seja, quebrar e remover conhecimentos, crenças e emoções, em grande parte oriundos do sistema educacional que foi frequentado. Isso mesmo, adultos cumpriram todo o protocolo educacional, ou seja, chegaram a seus mestrados e doutorados e a seus rótulos de empresários, líderes ou profissionais “de sucesso”… E hoje , de repente, perceberam que apesar de todos os títulos e patrimônio, apesar de haverem estudado e trabalhado tão duro, de haverem conquistado ou mantido aquilo que a educação e a sociedade definiram como importantes, não sentiam-se bem com as próprias vidas. Muito pelo contrário, não encontravam sentido algum naquilo que faziam, ou que eram.

As décadas de educação que receberam nas instituições de ensino mais renomadas, nunca contribuíram para diversos aspectos cruciais de suas vidas como por exemplo:

– O domínio das próprias emoções para poder mantê-las em um estado positivo (livre de ansiedades e medos)

– A tranquilidade em relação ao futuro (seja ele qual for), até porque é imprevisível mesmo.

– A solução de conflitos e problemas no relacionamento com outras pessoas, ou mesmo a capacidade de interagir com outro ser humano de forma construtiva.

– O tempo ou a coragem para dedicar-se mais àquilo que gostam (ou que consideram importante em suas vidas) ou de pelo menos para tentar descobrir isso.

– E principalmente, a capacidade para reinventar-se sempre que necessário, criando realidades nunca imaginadas para suas vidas e para suas comunidades.

É incrível como nossa educação não contribuiu com nenhum desses aspectos. Muito pelo contrário, suprimiu aqueles que já tínhamos (pois muitos desses aspectos fazem parte de nossa natureza) e gerou a falsa percepção de que a busca do aumento de patrimônio, dos títulos e rótulos sociais, de acordo com este sistema mecânico/econômico pré-determinado a pouco mais de 100 anos, seria suficiente para todos vivermos uma vida “bem vivida”.

Mas o grande problema é que, por mais que sejamos fiéis cumpridores de todos os padrões sociais, por mais que acumulemos patrimônio, títulos e rótulos nós não conseguimos viver uma vida “bem vivida”. Porque predominam em nossos corações as emoções negativas como a ansiedade e o medo, porque nunca estamos tranquilos em relação ao futuro ou às outras pessoas, porque não sabemos nos relacionar de forma construtiva com as elas (e pior, com o predomínio destas emoções negativas, mal sabemos interagir com elas), porque (à exceção do aspecto tecnológico) esquecemos totalmente o que é ser criativo (já que vivemos apegados à falsa segurança dos padrões sociais e com receio de abandoná-los), e porque estamos sempre vulneráveis devido a alguma carência que precisa ser suprida… A educação alimentou-nos uma falsa expectativa do que é uma vida “bem vivida”, mas de fato contribuiu justamente para o contrário, ou seja, para vivermos reféns de nossas próprios medos e carências… Eu me arrisco a dizer que os grandes problemas da humanidade estejam diretamente relacionados a isso.

É claro que a educação não é a fonte de tais valores distorcidos de nossa sociedade, mas é certamente uma das principais ferramentas, além de outras como por exemplo a mídia, que conhecemos para garantir e perpetuar estes valores.

A maneira que encontramos para ajudar aqueles adultos que nos procuram sentindo aquele vazio em suas vidas foi justamente deseducá-los, ou seja, despertá-los para o fato de que tudo que a educação e a sociedade impuseram, e que eles aceitaram, como valores e propósito de vida, é uma ilusão que nunca os fará sentir realmente plenos. E que para se sentirem plenos, ou felizes, precisarão quebrar muitas crostas de condicionamentos sociais que foram implantados e reforçados em suas mentes e corações pelas ferramentas sociais. Assim poderão voltar, encontrar-se e conectar-se consigo mesmo em seu estado original, natural. Poderão começar a se auto-perceber e entender como e onde as próprias crenças os conduzem para as próprias agonia. Este é o início da jornada para os adultos educados.

Por outro lado, crianças com até 5 ou 6 anos de idade já vivem em seu estado natural. Já estão conectadas com elas mesmas e não possuem nenhuma crosta de condicionamento que gera agonia para suas vidas. Elas de fato estão muito mais próximas de uma vida plena e feliz, do que nós, adultos educados. Note que elas já são os seres mais criativos que conhecemos, já são tranquilas em relação ao futuro (aliás, nem se preocupam com ele), e possuem a chama do aprendizado acesa, ou seja, aprender para elas é natural, é o que fazem melhor. E sabem qual é uma grande fonte de aprendizado para elas? A observação dos adultos que as cuidam. Isso mesmo, portanto se esses adultos mantiverem suas emoções em estado positivo (livre de medos e ansiedades), souberem se relacionar uns com os outros de forma construtiva e harmônica, e dedicarem seu tempo e sua coragem para fazer aquilo que efetivamente gostam e consideram importantes, adivinhem o que as crianças estarão observando e aprendendo ?… Isso mesmo, exatamente a mesma coisa…

Uma criança que consegue crescer mantendo a criatividade, a vontade de aprender e a tranquilidade em relação ao futuro no topo (assim como já está) e ao mesmo tempo, observando os adultos que a cercam, aprender a manter suas emoções sempre no lado positivo, a se relacionar de maneira construtiva com os outros, e a dedicar-se com afinco para aquilo que gosta de fazer, eu pergunto, essa criança vai precisar de educação para quê ?…

Não há dúvidas que uma criança que cresce com essas habilidades será um adulto que viverá bem (e se dará bem) em qualquer ambiente que este nosso mundo colocar diante dele… E simplesmente não existe sucesso maior do que esse.

Então está aí… ninguém precisa de educação. Principalmente as crianças. Elas já nascem com o a chama do aprendizado e da criatividade acesa e forte. Não precisamos apagar esta chama com educação, basta deixa-las em paz e somente fornecer o ambiente adequado para que ela possa observar aquilo que realmente será útil em sua vida, como o controle emocional, as relações construtivas e o fazer o que gosta com entusiasmo e afinco para servir os outros. Se ela somente observar os adultos agindo assim, ela irá aprender rapidamente. E nosso mundo em breve será outro… Já a imensa maioria dos adultos, estes sim precisam e muito, de DESEDUCAÇÃO.

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Acompanhe aqui o Podcast do programa Acordar e Agir onde Renan Carvalho e Thiago Berto participam de um diálogo construtivo sobre Educação.