Quando comecei a sentir um incômodo recorrente e inquietante com o meu dia a dia, sabia que este sentimento não me abandonaria tão cedo. Ele chegou de mansinho, expandiu-se como um forte sentimento de desconexão e, por mais que tentasse negá-lo, estava dentro de mim. Até o dia em que tive que dar o próximo passo. E o próximo passo foi apenas o primeiro passo de muitos, num longo caminho sem volta, uma jornada de transformações. Eu sabia que era uma mudança diferente. E, aos poucos, descobri que o que começou no mundo do trabalho, abraçava toda a minha vida. Talvez o desconforto tenha surgido no trabalho porque ele ocupa grande parte da nossa existência.

Esta insatisfação me levou a querer dar uma pausa para reflexão, desfrutar do famoso sabático, opção de mais e mais pessoas.  Os primeiros meses desse período foram intensos. Era como se o que eu mais gostasse estivesse represado. Aos poucos ia abrindo as comportas, permitindo-me vivenciar tudo.  Comecei participando de um curso no Schumacher College (Inglaterra), referência mundial em sustentabilidade, estive na França, Espanha, Irlanda, Turquia, Índia e nos pés dos Himalaias. Quando em terras brasileiras, fiz várias conexões, tomei cafés divertidos com pessoas que há tempo não via, descartei muito do que eu não precisava. Leituras postergadas foram colocadas em dia sem pressa, sentada na grama do parque ou no sofá da sala. O mar acolheu-me praticamente todos os finais de semana (algumas vezes estiquei a semana, claro!) e até aprendi stand up paddle, que não se resumia em remar em pé numa prancha. Era mais, pois permitia apreciar a imensidão azul, que sempre amei, sob outras perspectivas.  Além disso, investi tempo em coisas simples. Comecei a praticar meditação e voltei aos trabalhos manuais (crochê, tricô, bijuterias e pequenos consertos), caminhadas e, principalmente, passei a ficar mais com a minha família. Também aprendi a apreciar a lua e, em certos dias, acordar mais cedo para ver o sol nascer, o que recomendo fortemente. Depois de sete meses voltei ao trabalho formal. E a insatisfação interna continuou. Após três meses pedi a demissão. Foi quando fiz uma viagem muito diferente. Mergulhei em mim. Aos poucos percebi que o sabático tinha sido apenas o começo de uma grande transição.

Minhas inseguranças me levaram a tentar um emprego formal por outras vezes. Mas em nenhum deles me senti por inteira. Em todos, acabava novamente deixando de lado as coisas que mais gostava e sentia mais uma vez minha vida pessoal completamente separada daquelas oito horas, como se fosse vivida apenas nos finais de semana. Eu queria integrar tudo. Não queria uma vida pessoal e outra profissional. Não queria tirar férias para ir à praia, meditar ou para ficar com a minha família. Queria ter uma vida única, ter tempo e, principalmente, sentir-me útil ao unir mente e mãos naquilo que chamamos de trabalho. A culpa não era das empresas. Os questionamentos eram meus. Tem gente feliz sob o teto de uma organização.

O que me alenta naquele que colocou minhas crenças em cheque, o trabalho, são as mudanças em curso que começam a surgir. Dia após dia nascem alternativas ao trabalho “normal” que conhecemos. O empreendedorismo com propósito, aquele que foca no que a pessoa realmente gosta de fazer, ganha força. Multiplicam-se novos modelos de gestão com menos hierarquia e maior grau de transparência.  E sim, há empresas funcionando como um sistema vivo, olhando as pessoas como pessoas e não como recursos. Padrões como oito horas por dia e salas formais são substituídos aos poucos.  Imagine paredes mentais em queda e a abertura de um mundo de possibilidades. Está acontecendo. A remuneração já não é apenas em dinheiro (pode ser uma troca!), o local de trabalho pode ser num parque, no outro dia numa cafeteria, num espaço de coworking ou em qualquer parte do mundo. Tempo livre é moeda. Conhecimento é moeda. No meio de tudo, fazer o que se ama virou prioridade e gostar de várias áreas é completamente aceitável. A velocidade das mudanças desafia as empresas que correm para se adaptar. Como isso será possível é a grande pergunta.

Compassadamente compreendi que a transição não estava só em mim. E nem se resumia ao trabalho. Vivemos um momento gigantesco de transição no mundo. Ela remodela o antigo, mas às vezes parece quase invisível. Não é recente, mas de vez em quando, sopra como uma novidade. Ora corre lentamente, ora se arrasta voando. Independentemente do ritmo, do tempo, da intensidade e da abrangência, ela está aí. Não dá mais para negar. Os modelos colaborativos se fortalecem dia a dia. As pessoas estão repensando a alimentação. Ninguém mais quer ingerir veneno. Cresce o número de adeptos à meditação e à prática da ioga. Há mudanças se multiplicando na tecnologia, na forma de morar, na alimentação, na economia, na educação, na espiritualidade, na saúde e em muitos outros campos.

Isso nos obriga a estar constantemente aprendendo. Ensaiamos passos em direção a outros caminhos, como da hierarquia para uma liderança compartilhada (menos centralizada), da competição para a colaboração, do meu para o nosso. Mas, claro, muitas ações ainda mostram a mente presa no medo, no individualismo e na escassez, mantendo as grades invisíveis que nos separam uns dos outros. Talvez por isso seja difícil dividir os recursos do mundo, afinal a crença é de que podem faltar. Talvez por isso seja inaceitável compartilhar todos os conhecimentos com o colega de trabalho, afinal foi dito que com ele é preciso competir. Talvez seja por isso que tantas outras coisas são como são, ainda. O mundo nos oferta tudo, só precisamos aprender a redistribuir. Quanto mais damos, mais recebemos. É a abundância que jorra, mas ainda não conseguimos ver com clareza. Aos poucos, palavras como compartilhar, cooperar, trocar, cocriar, coletivo, diálogo, participação, comunidade, ecovila, serão de muitos. Emergem a cada dia novas práticas, ensinamentos e metodologias, como Teoria U, Educação Gaia, Dragon Dreaming e inúmeras outras.

E no ritmo cadenciado da mudança, o trio corpo, mente e espírito vai mostrando sinais de conforto e desconforto. O que não condiz perde força e abre espaço para o novo. Para mim, viajar pareceu preciso. E foi transformador. Mas a busca não é fora. A busca é dentro da gente, um mergulho num mundo sombrio e esquecido, que nos remete a um resgate de quem somos de verdade. Conhecer a si próprio leva a uma peregrinação por um caminho tortuoso, às vezes solitário, no qual nascem reflexões sobre trabalho, uso do tempo, consumo, família, relações, comportamentos, enfim, sobre o modo de viver e seus impactos em si mesmo, nos outros e no meio ambiente. O avanço é aos poucos e, com menos camadas, rumamos ao verdadeiro eu. E quanto mais nos aproximamos de nós mesmos, menos dificuldades temos em reconectar tudo, inclusive o trabalho.  A jornada é marcada ainda pela explosão de uma grande vontade de sentir-se útil ao mundo. Entre as tantas descobertas, percebemos que é possível unir nossos talentos e paixões às necessidades à nossa volta e assim, ter o sentimento de estar sendo útil e servir com felicidade. Desta forma, o trabalho passa a ter mais sentido.

Gradativamente o sentimento de desconexão fica para trás e tudo passa a fluir como em uma coreografia ensaiada. As “coincidências” se tornam constantes, surgem de forma natural, o que nos surpreende. Afinal, perdemos o hábito de confiar no imprevisível. A transição não tem fim, mas desemboca num caminho: uma vida mais simples, leve, solta e com escolhas e ações conectadas com você de verdade.