Você se casaria com uma pessoa desonesta ? Você contrataria uma pessoa desonesta ? Você votaria em uma pessoa desonesta? Você teria amizade com uma pessoa desonesta? Se fizermos estas perguntas para o público geral, dificilmente ouviríamos um sim. Ninguém quer lidar com pessoas desonestas, ninguém quer se aproximar de pessoas desonestas, e se pudessem decidir o que fazer com pessoas desonestas, penso que uma maioria ia pensar em algum tipo de punição. Esse tipo de pensamento está tão arraigado no senso comum, que me arrisco a dizer que um dos valores que o ser humano mais preza é a honestidade.

O grande problema que vejo é que honestidade, e desonestidade, são palavras abstratas, são rótulos, são julgamentos que criamos para fazer uma leitura da realidade. São opiniões, e não a realidade em si.

Vou tentar explicar melhor com um exemplo: Um amigo te convidou para a festa de formatura do filho dele, você disse que não poderia ir devido a um compromisso importante já agendado, quando na realidade você estava era cansado, queria assistir um filme e comer pipoca em seu sofá.

Se não exatamente com estas palavras, é muito provável que você, ou eu, tenhamos uma história semelhante, não é ? E porque não dissemos a verdade?… Talvez para não magoar o amigo ou para evitar um julgamento, ou seja, por algo que consideramos ser um “bem maior”.

E por haver mentido nessa situação, será que isso faz de você, ou eu, uma pessoa desonesta ?

Aí está o elemento complicador: isso vai depender do julgamento de cada um. Ou seja, honesto e desonesto não são palavras que refletem a realidade, são interpretações da realidade que as pessoas fazem baseada em suas próprias crenças.

A realidade pura e simples é que falamos uma coisa para nosso amigo e fizemos outra, ou seja, nós mentimos. Alguém vai nos rotular de desonesto por isso? Certamente os mais pragmáticos sim, porque vão dizer que mentir é sinônimo de desonestidade. Mas será que, mesmos estes mais pragmáticos, não me contratariam, ou rejeitariam minha amizade, por causa disso ? Pensando bem, é possível que ocorra exatamente o contrário, ou seja, alguns até queiram me contratar justamente por ter sido desonesto nesta situação, ou seja, vão considerar aquele “bem maior” (ter se preocupado com os sentimentos do amigo) como mais relevante do que o ato desonesto em si.

Agora chegamos a um ponto interessante. Nesse exemplo dado, de mentir para o amigo, estamos falando de um ato aparentemente simples e sem gravidade, ou seja, que não gera maiores consequências. Mas se definirmos um ato desonesto como todo ato em benefício próprio que causa prejuízo ou dano a outras pessoas, segundo Dan Ariely, o maior pesquisador do mundo sobre o tema que realiza centenas de experimentos para avaliar a honestidade das pessoas, todos nós somos capazes de cometer atos desonestos e relevá-los, desde que consideremos que seja por um “bem maior”. E fazemos isso porque temos a capacidade de racionalizar, ou seja, de encontrar dezenas de motivos e causas que fazem todo sentido, para justificar nosso ato, e de minimizar ao extremo, em nossa mente, as consequências desse ato para outras pessoas. Fazemos isso tão bem que podemos considerar um ato desonesto como necessário, útil e até mesmo… como honesto. Afinal, em nossa mente, este ato pode estar gerando uma contribuição muito grande para um “bem maior”.

Aí surge então o outro grande problema, o que de fato pode ser considerado um “bem maior” ?

Se a humanidade vivesse de acordo com sua natureza humana, colaborativa, harmônica e empática e livre de propriedades, seria fácil definir o “bem maior”. Ele seria o bem comum, o bem de todas as pessoas, calcado em um verdadeiro amor que seria livre de rótulos e julgamentos. Seria um bem que leva em consideração todas as pessoas, e não só eu, ou meus afins. Nesse cenário, rótulos como honesto e desonesto não existiriam e nem fariam o menor sentido, assim como não existiriam atos desonestos, mas somente erros e aprendizado.

Porém, sabemos que hoje em dia esse não é caso. A humanidade não vive de acordo com sua natureza humana, mas vive sim de acordo com crenças que foram imaginadas e cultivadas ao longo do tempo. Então passamos a considerar o “bem maior” não mais o bem de todas as pessoas, mas sim aquele bem que nos favorece, que favorece a nossa família ou os nossos afins… e que pode acontecer em detrimento daqueles que não são nossos afins. O “bem maior” segundo essa crença, vale primeiro para mim ou para os meus, e depois para os outros.

Estas são as crenças egoístas que nos fazem enxergar o mundo como competitivo. Assim, ao invés de colaborar, precisamos competir uns com os outros, precisamos garantir aquilo que consideramos bom tanto para nós, como para nossa família ou nossos afins. Já aqueles que não são nossos afins, nós não importamos muito com eles. Se acontecer algo de ruim com eles, é sina. Na verdade nós os consideramos adversários, oponentes, pessoas que podem ser ignoradas ou, até mesmo, descartadas. É triste, mas a maioria de nós aceita como válido esse pensamento, e acabamos agindo de acordo com ele.

Como podemos ver, o “bem maior” tornou-se algo egoísta, algo que nos beneficie. E quanto mais me percebo em um ambiente competitivo, então esse “bem maior” pra mim, passa a ser tudo aquilo que contribui para a minha vitória, ou para que eu alcance meus objetivos. Se contribuir para minha vitória, ou para o benefício dos meus, o “bem maior” é válido.

Tal crença faz com que as pessoas cometam atos desonestos muitas vezes à revelia, de maneira inconsequente, e estejam sempre racionalizando e justificando esses atos pelo seu “bem maior”. E com muitas pessoas agindo assim, acaba-se fazendo necessário a existência de juízes para arbitrar esses atos, ou seja, para decidir qual “bem maior” é mais importante, se o meu ou o do outro. Porque nenhum dos dois abre mão de seu bem maior.

Os esportes competitivos são um grande exemplo disso. Se o atleta caiu sozinho, mas o juiz se equivocou e marcou pênalti, será que algum jogador do time favorecido irá se manifestar de forma honesta com o juiz ? Será que algum torcedor do time favorecido vai querer que prevaleça a honestidade ? Claro que não… Isso ocorre em todo e qualquer esporte competitivo. E mais, a grande maioria dos atletas profissionais (pra não dizer todos) buscam, todos os dias, artifícios químicos para melhoria de sua performance. Desde que o artifício químico não esteja proibido, tudo bem, usam aos montes. Se alguma agência anti-doping resolve proibir, muitos ainda buscam maneiras de burlar as regras da agência, e estas, a todo momento precisam atualizar estas listas de substâncias proibidas. Isso é tão comum no esporte profissional quanto fechar os olhos para a marcação equivocada de um árbitro que favoreceu meu time.

Podemos afirmar categoricamente que, colocar duas ou mais pessoas para competir em um ambiente esportivo com um “bem maior” em jogo, significa despertar a desonestidade delas e de todos que torcem por elas. E o mais interessante é que, seus atos desonestos acabam sendo aceitos pela sociedade. Todos aprendem a relevar estes atos pelo “bem maior” da vitória. E para o atleta, este “bem maior” pode ser algo muito grande. Algo que está muito além da simples vitória. Pode incluir também a glória, a fama, as recompensas milionárias, o orgulho dos pais, a alegria de seus afins, da sua torcida, de seu país, o rótulo de herói. Enfim, nos esportes competitivos o “bem maior” pode ser monstruosamente grande, tornando assim muito fácil, e até socialmente aceito, cometer atos desonestos e racionalizar em cima deles.

Mas no meio esportivo, a competição ainda possui regras claras, os prêmios em dinheiro estão previamente definidos, existem os árbitros, a disputa acontece na frente de milhares de pessoas, e ainda é transmitida ao vivo para milhões. Ou seja, é um ambiente que ainda tenta ser transparente para combater a desonestidade.

Agora vamos pensar sobre outro tipo de competição muito popular, aquela onde candidatos e partidos competem por cargos públicos. Nesse caso as regras não são claras, a competição ocorre longe dos olhos das pessoas, não existem árbitros, os prêmios em dinheiro não tem limite, e o “bem maior”, além de incluir a mesma glória, fama, orgulho da família, alegria de sua torcida, rótulo de herói e recompensas financeiras (que não podem ser explícitas, mas que sabemos que existem), inclui ainda muito mais !… Inclui o poder e suas regalias, a honra aos compromissos com aqueles que te financiaram (e tornaram-se seus “amigos”), o apoio dos pares e colegas e, inclui ainda, principalmente, a própria ideologia, ou seja, a crença de que minhas decisões serão melhores para a população do que as decisões de meu adversário. Tudo isso na cabeça de um político representa um “bem maior” muito… mas muuuuuito mais monstruoso do que aquele dos atletas, com o agravante de que o político está em um ambiente competitivo muito menos transparente, e com muito mais pressão (ou seja, com o popular “rabo preso”).

Em ambientes assim é normal que pessoas façam o que for necessário para garantir o “bem maior”. E depois usem a racionalização e a televisão (que é a ferramenta perfeita para esse fim) para convencer todos, principalmente a população que joga esse jogo, de que o jogo é limpo, de que que estão lá pelo bem da população, e que atos desonestos de fato não são desonestos, são perfeitamente normais. E inclusive deveriam ser aceitos e estimulados pelas próprias leis.

E o pior de tudo é que, se os políticos não agirem dessa forma, são execrados pelos próprios companheiros, ou seja, sofrem a pressão interna para continuem agindo exatamente dessa maneira, mantendo assim o status de vitorioso. Situação muito semelhante vive aquele jogador que caiu sozinho e o juiz marcou pênalti na final do campeonato. Se ele tem princípios e resolve ser honesto com o juiz, certamente ele será execrado pelos seus próprios companheiros e corre o risco até de ser linchado pela própria torcida.

Tem como resolver isso ? Será que podemos construir um ambiente mais saudável e harmônico, onde as pessoas façam as coisas pensando no “bem maior” de todos, e não somente no de si próprio e de seus afins ? Penso que temos 3 grandes desafios pela frente:

– Primeiro, é preciso ter uma consciência clara de que todos nós estamos sujeitos a cometer os mesmos atos desonestos que vemos outras pessoas cometerem, se estivermos participando do mesmo ambiente competitivo que elas participam, e sofrendo as mesmas pressões que elas sofrem. Ou seja, se eu for um jogador de futebol, muito provavelmente eu também vou fingir que sofri uma falta para enganar o juiz. Se eu não aceito essa atitude então seguramente eu vou fazer qualquer outra coisa, menos jogar futebol. Até porque eu nem mesmo seria aceito em uma equipe onde todos os outros participantes enxergam esse ato desonesto como inofensivo e necessário para o “bem maior”. Entender isso nos permite eliminar a crença de que existem pessoas honestas ou desonestas, ou de que pessoas que cometem atos desonestos são pessoas piores que a gente. Isso não existe, temos que cortar o julgamento na essência. O que existe são ambientes que cultivam a desonestidade por serem competitivos. Quem aceita esses ambientes, está sujeito a cometer esses atos.

– Segundo, é preciso ter uma consciência clara de que atos desonestos não são causas, mas sim consequências. São efeitos. E que, portanto, não adianta tentar eliminá-los combatendo-os diretamente. Punição e rótulos para as pessoas que cometem esses atos nunca será uma solução. Até porque todos aqueles próximos a estas pessoas também estão cometendo atos desonestos semelhantes pelo mesmo “bem maior”, e não estão sendo punidos. A pessoa punida acaba sentindo-se injustiçada por isso. Porque todos fazem e só ela foi punida. Ela acaba achando que é uma azarada porque deixou rastros e foi pega. E que precisa ser mais esperta da próxima vez. E o ato desonesto que ela cometeu, este permanece inquestionável pois está muito bem justificado pelo “bem maior”, e é validado não só por ela, mas também por todos aqueles próximos a ela que estão cometendo atos semelhantes. Ou seja, nesse caso leis e justiça nunca irão resolver.

– Terceiro, a única chance que temos é atuar diretamente sobre a causa, que é a consciência de um verdadeiro “bem maior”. Esta é a consciência de nossa natureza empática, harmônica e principalmente, colaborativa. Consciência de que nossa evolução como espécie nos transformou no único ser capaz de manifestar amor, e de que esta capacidade de manifestar amor respondeu por nossa sobrevivência neste planeta durante milhões de anos. Consciência de que inclusive nossa anatomia e fisiologia, ou seja, o nosso corpo, reflete o corpo de uma espécie que evoluiu praticando esse amor, essa colaboração. Não temos garras, presas, asas, velocidade, força, tamanho, agilidade, enfim, não temos nenhum indício de que evoluímos para tornarmos um ser competitivo. Outros animais possuem esses indícios, seres humanos não… Pelo contrário, todos os indícios evolutivos apontados inclusive por Darwin em seu livro “A Descendência do Homem”, mostram que nosso organismo desenvolveu-se durante milhões de anos para colaborar, para ajudar, para amar. Segundo Darwin, a “compaixão” é a característica que melhor distingue o ser humano como espécie.

Então, no final das contas só precisamos viver esta nossa natureza. Abandonar a imaginação de que somos seres competitivos, e assim minar, destruir estas “crenças egoísta” e, com ela, todo esse “bem maior” individualista e distorcido, que justifica hoje, justificou ontem, e justificará sempre, os atos desonestos das pessoas. Se destruirmos as nossas próprias crenças egoístas, estaremos cortando o mal pela raiz.

A solução começa em nós, eliminando julgamentos e rótulos, e com isso começando a cultivar o amor. Não há como cultivar amor enquanto se julga e rotula as pessoas. Ao resolvermos isso dentro de nós, existe uma chance de resolvermos no mundo. Caso contrário, continuaremos vivendo uma grande ilusão.