Muito interessante esta iniciativa do Mo, esse cara ex Google que está com a meta de 1 bilhão de pessoas felizes até 2029.. Veja neste vídeo: https://www.linkedin.com/feed/update/urn:li:activity:6381824349774667776/ . Em mim surgem várias reflexões e dúvidas diante desta iniciativa. Não em relação à tecnologia, à qual eu não tenho conhecimento de causa para dizer nada a respeito..

Portanto se eles afirmam que a inteligência artificial é isso, e será assim, então deve ser mesmo..
A principal dúvida que surge é em relação ao conceito de felicidade que ele usa como parâmetro. Apesar de ser um super expert em inteligência artificial, não dá pra saber o quanto ele se aprofundou, na prática, no assunto Felicidade… E sobre esse assunto, como eu tenho uma experiência razoável tanto teórica quanto prática, surgem inúmeras dúvidas em relação à sua meta…

A primeira delas é em relação à possibilidade de deixarmos uma pessoa feliz. Como vimos inúmeras vezes no PLO, podemos exercer uma influência, mas não temos controle… Eu que já venho estudando esse assunto a uns bons 15 anos, aprendi que a única pessoa que consigo fazer feliz sou eu mesmo.. E olha que exige um esforço grande e contínuo… Quiçá eu conseguisse, apesar de estar vivendo uma relação próxima de décadas, deixar a minha esposa, ou meu irmão, felizes… Eu tento influenciar a minha vida inteira, mas não necessariamente consigo… Porque apesar de eu ter conseguido vencer algumas carências, complexos e julgamentos que eu tinha comigo mesmo e com os outros, ainda não consegui fazer com que eles vençam muitas de suas carências, complexos e julgamentos que eles construíram ao longo de uma vida. Seria como tentar colocar na cabeça dos palestinos que a vida deles será bem melhor até 2029, se até lá eles abandonarem todas as emoções negativas em relação aos judeus, acabarem com essa rixa de 5 mil anos, passar a amá-los, e vice versa… Ou tentar dizer para nós, ou para qualquer um no ocidente, que até 2029 nós devemos abandonar todos os medos e raiva que temos de criminosos, abrir as cadeias e passar a tratá-los com amor…. Pode acontecer ? Não sei sobre o futuro, tudo pode acontecer… mas a probabilidade é ínfima!
Ou seja, me parece que o Mo ainda enxerga Felicidade dentro do paradigma ocidental, que significa que é algo proporcionado pelo ambiente… Sendo que a lógica mais razoável, pra mim, é que Felicidade é algo que vem de dentro das pessoas. O ambiente pode ser o melhor ou o pior, e isso não vai influenciar em nada o estado de Felicidade de uma pessoa. Felicidade depende de descobertas, ou de um despertar de consciência, que podemos até estimular, mas não dá para sabermos, prevermos ou definirmos quando acontecerá com uma pessoa. Que dirá com muitas… Ou seja, nosso estímulo pode não valer nada.

Outra dúvida que surge é a seguinte: Felicidade não é preto no branco… É uma curva contínua que vai do copo de água suja para o copo de água limpa. Ou seja, até o Dalai Lama tem momentos de emoções negativas, os quais ele próprio combate, para trazê-lo novamente para um estado de Felicidade. E assim todos nós temos a necessidade de nos esforçarmos sempre para, aqui e agora, ir limpando o nosso copo. Então qual seria o nível de copo limpo ideal que as pessoas deveriam alcançar para serem chamadas de “Felizes” ?.. Deveriam alcançar um nível de Felicidade Plena, ou só a consciência para começar a remover as sujeiras (ou combater as emoções negativas) ?

Mais uma dúvida.. Dependendo do nível de copo limpo que a pessoa considerada “Feliz” deve alcançar.. Quem disse que já não existe 1 bilhão de pessoas felizes  no mundo ?.. Trazendo para o conceito de felicidade do PLO, e levando em consideração que alguns critérios estejam preenchidos, como Servir, Ter compaixão com as pessoas, Fazer o que Ama e coisas assim… É bem provável que já exista um bilhão de pessoas que se encaixam em um padrão parecido… Talvez a grande maioria em países pobres, onde a necessidade de ajudar o próximo é bem maior, e o acesso a bens materiais é bem menor… Só que essas pessoas por um lado, não aparecem na mídia, e por outro… são rotuladas pelos intelectuais do mundo ocidental de “coitadinhas”… Porque esses intelectuais vivem no paradigma de que, se o ambiente delas é ruim, então elas não podem ser felizes..

Bom, toda essa história dá conversa pra mais de mês rsrs… Ainda por cima dá para questionarmos a influência contrária que ainda é fortemente predominante… Ou seja, TV, Mídia, Redes Sociais, Netflix, Empresas e Governos em todo o mundo, ainda estão exercendo 99% de seu papel, para provocar e manter as pessoas em um estado de infelicidade, ou seja, 99% do trabalho de todos eles é provocar Medo, Ódio, Carências, Inveja, Raiva, Julgamentos e Culpa nas pessoas. Ou seja, mesmo que conscientemente despertemos para aquilo que nos deixa feliz, teremos que desenvolver força para lutar contra todo o sistema, que fará de tudo para nos colocar novamente em um estado infeliz…

Baseado nisso tudo, penso que a iniciativa do Mo é nobre e interessante, porém, ainda está muito presa a paradigmas. Parece coisa de gente que vive dentro de uma bolhinha no Vale do Silício, e acha que estabelecendo uma meta ousada, consegue fazer uma grande diferença..

Se as máquinas vão realmente aprender com os valores que a maioria das pessoas tiverem daqui 10 anos, isso significa a necessidade de colocarmos um prazo para abandonarmos, como humanidade, a nossa crença egoísta e competitiva construída em 12 mil anos, e então passarmos a viver como seres altruístas e colaborativos.
Isso pode até acontecer, mas organicamente falando, a meta e o prazo não irão ajudar em nada.. na verdade contribuirão para mais emoções negativas e menos felicidade no percurso..rsrs.. Ou seja, certamente teremos que enfrentar mais um desafio como humanidade, que é ter que lidar com uma inteligência artificial autônoma, egoísta e competitiva, que será um reflexo de nosso próprio pensamento.