Em uma das minhas caminhadas reflexivas diárias, lembrei-me de uma passagem do filme Invictus, onde o então presidente da África do Sul, Nelson Mandela, ao entrar no gabinete do governo para iniciar seu mandato, encontra todos os funcionários do palácio com as malas prontas. Por serem brancos, a expectativa geral era de que fossem demitidos, pois assumia um presidente negro, preso 30 anos por lutar pelos direitos dos negros.  Qual seria a atitude mais fácil para Mandela? E você, que atitude tomaria? Mandela poderia escolher o mais fácil, mas ouviu o coração, a consciência, a sua própria natureza. Jogou fora as diferenças em prol da paz, pedindo para que todos continuassem a trabalhar no governo, e dando liberdade para aqueles que desejassem sair. Daí a gente pensa: Mas era o Mandela, né? Sim, e por isso ele foi o líder que foi, pelas escolhas que fez durante sua vida.

Escolher entre o mais fácil e o mais certo em todos os momentos em que esta decisão se faz necessária, é o que nos torna a pessoa que somos. Escolher sempre o mais fácil pode nos aproximar do que queremos ter, mas também pode nos afastar de nós mesmos e de nossos valores, por isso temos que ser conscientes das nossas escolhas. Paremos pra pensar se não nos aparecem todos os dias situações onde temos que fazer a escolha entre o mais certo e o mais fácil. Outro dia, ao sair da garagem do prédio do meu trabalho, raspei com meu carro em outro carro que estava estacionado. Na mesma hora desci para olhar e percebi que tinha estragado o outro carro, que por sinal era muito novo. Minha primeira reação foi olhar ao redor e ver se não tinha ninguém por perto ou câmeras no local. O que fazer neste momento? Neste caso, que atitude você tomaria?

No trabalho, no trânsito, nas relações familiares, na nossa vida estamos sempre votando entre o certo e o fácil. Infelizmente percebo que a maioria das pessoas não reflete nessas horas, deixam no automático, que sempre direciona o voto para o mais conveniente, e que muitas vezes não é o mais ético. O conveniente é aquilo que o senso comum dita, geralmente impulsionado pela lei do menor esforço, enquanto o ético está no senso interno de cada um, baseado nos valores e princípios atemporais e aculturais. Como nos desenhos animados, é o anjinho no ouvido esquerdo, e o capetinha no direito. Nossa primeira reação quando temos que tomar alguma decisão, é acompanhar a maioria, sem parar pra pensar se a decisão da maioria representa o que realmente achamos certo. Se está todo mundo batendo no cara, é mais fácil e seguro ir lá e dar um chute também, do que tentar defendê-lo. É mais fácil assumir uma culpa diluída do que lutar sozinho pela justiça.

E já que citei Mandela, o que dizer dos nossos políticos com relação às suas escolhas? Será que eles estão escolhendo pelo que é mais certo? A julgar pela situação do país, e até do mundo, verificamos que a conveniência ganha de goleada da ética.  Porque será que é tão difícil ter políticos como Mandela, que pautaram suas principais escolhas pelo mais certo? Já repararam que a grande maioria das pessoas que trabalham em benefício da população, do bem comum e das melhorias sociais, não estão e nem querem estar na política? E mais, essas pessoas também não tiveram posses e não controlaram grandes corporações. Madre Teresa, Irmã Dulce, Gandhi, Luther King, Jesus Cristo e Malala foram ou são alguns exemplos de pessoas assim. Essas pessoas tem em comum a escolha por uma vida dedicada a causas maiores do que cargos, bens e posses, mas também recheada de dificuldades e obstáculos superados ao longo de suas jornadas.

A dificuldade da escolha pelo certo é diretamente proporcional ao quanto temos a perder. Nos mundos corporativo e político isso é bem perceptível. As pessoas buscam ascensão para ter status, dinheiro, patrimônio, poder e outras coisas mais, e para conseguir tudo isso fazem escolhas, e estas escolhas são mais difíceis à medida em que conquistam ou querem conquistar todas essas coisas mantendo seus princípios e valores internos. Ou seja, quanto maior seu cargo ou seu patrimônio, menos você tende a optar pelo que é certo, pois com esta escolha pode pôr tudo a perder! E é por isso que, na política, as pessoas colocam os interesses próprios à frente dos comuns. Porque é mais fácil. A manutenção dos cargos e bens é mais importante pra todos que estão no controle do que os interesses da população, e quem age contra este objetivo numa corporação ou numa instituição pública, acaba ficando isolado, tendo de escolher entre ficar quieto ou ser expurgado do sistema.

Portanto, é muito mais fácil e conveniente atender a demandas de grandes empresas do que discutir problemas com a população. É muito mais fácil negociar cargos e dotes com empresas e partidos políticos, e indicar como ministro do transporte alguém que nunca subiu em um ônibus, do que sair às ruas pra ouvir e sentir os problemas reais das cidades. É muito mais fácil demitir toda a equipe do governo anterior do que olhar pra frente e conciliar os interesses em prol de um ideal de nação. É muito mais fácil e conveniente fazer a vontade dos acionistas em prol do crescimento da mineradora, do que investir para mitigar o risco de matar dezenas de pessoas com o rompimento da barragem. Os resultados do fácil são imediatos, muito melhores pra quem cultiva o produto como ideal de sucesso, mas angustiantes pra quem quer viver de forma sustentável, justa e humana.

Contudo, ao se escolher o certo deve-se estar preparado para não conquistar o “sucesso” ditado pela sociedade, e para acumular antipatias e rótulos durante a jornada. Mas a felicidade de estar trabalhando em prol de um propósito maior faz com que estas “perdas” se tornem bobagens, e que estes obstáculos sejam pontes para o fortalecimento e evolução do ser humano. É por isso que existem pessoas que se dedicam ao seu propósito batendo de frente com o que a maioria pensa. E é por isso também que estas pessoas se tornam mártires, espelhos, ídolos, mesmo sendo pessoas comuns como nós, que fazem o certo só porque é o certo que tem que ser feito, sempre, independentemente do quão difícil pareça!

Portanto, melhor encarar as dificuldades como esmeris e escolher o certo sempre! Troquemos o “sucesso” pela paz interior, o “vencer na vida” pelo “viver”, o acúmulo de bens pelo acúmulo de amigos, a ambição do pódio pela alegria do caminhar junto. O ter pelo ser! As mudanças no mundo dependem das nossas eleições. Somos candidatos e eleitores de uma vida feliz, e sempre que votamos no que é mais certo e não no que é mais fácil, estamos conquistando a proximidade de nós mesmos, e das atitudes dos ídolos que nunca morrem em nós, como Nelson Mandela.Temos que saber que, no mundo de hoje, quase nunca é fácil optar pelo certo, assim como quase nunca é certo optar pelo fácil! Então, que atitude você vai tomar?