Em 2011 concluí uma pós graduação em Construção Civil na UFG com um artigo que analisava se o Setor Noroeste, bairro novo em Brasília, era mesmo sustentável e ecologicamente correto como divulgado nas propagandas de venda que o anunciavam como o primeiro bairro totalmente “verde” do Brasil.

Desde aquela época comecei a estudar mais as questões relacionadas à sustentabilidade e ao meio-ambiente, tentando entender realmente o que acontece no mundo, qual a relação das ações humanas com a devastação do planeta e o que eu, como indivíduo, posso fazer de fato para tornar o mundo mais sustentável.

Hoje esse tema continua sendo muito explorado, mas há dados que apontam pra mesma conclusão que cheguei no meu artigo em 2011:  Sustentabilidade é um termo usado muito mais como estratégia de marketing e venda e na defesa de interesses implícitos e obscuros de grupos, governos e empresas.

O discurso de quem defende energias renováveis, por exemplo, apóia-se na causa da defesa do meio-ambiente quando alerta para os danos causados pela emissão dos gases pelos automóveis movidos a combustão, ou pela degradação nos rios e florestas imposta pela construção de grandes usinas hidrelétricas.

Elon Musk, o multimilionário que lançou uma BMW no espaço, é um dos expoentes que defendem a substituição da matriz energética para a manutenção do planeta. Uma de suas empresas, a Tesla, fabrica veículos elétricos e desenvolve baterias e acessórios para captação e armazenamento de energia solar fotovoltaica.

Trocar sacolas de plástico por sacolas não descartáveis, gastar menos água, economizar energia elétrica, usar menos papel, e até eliminar o uso de canudinhos de plástico, assim como procurar nos rótulos das embalagens de produtos algum selinho de sustentabilidade, são ações que já fiz ou ainda faço, muito por conta das campanhas midiáticas em torno do assunto. O problema é que a minha consciência de hoje não se contenta mais com essas ações quando penso nos reais motivos pelo qual a natureza está sendo devastada, ameaçando a existência da própria humanidade.

Hoje o maior vilão dos ambientalistas é o carbono lançado na atmosfera, e os automóveis à combustão são as principais vítimas dos “eco-chatos”. No entanto, pouco se fala do quanto os aviões e os navios emitem de CO2 na atmosfera, e a viagens desses modais só aumentam. Na Inglaterra estão sendo adotadas medidas para se pensar na redução de emissão de carbono decorrente dos computadores, que se equipara à da industria da aviação. Alguém sabia disso?  

E o que dizer do metano emitido pela flatulência dos bois? Quem achar que é brincadeira, assista ao documentário “Cowspiracy”, ou pesquise no Google por relatório da ONU sobre a influência do consumo de carne na destruição do meio-ambiente. Poucas entidades de defesa do meio-ambiente  comentam sobre essa relação, que ao que tudo indica é uma das mais prejudiciais ao planeta.

Outra coisa que pouca gente sabe é que a indústria têxtil é a segunda mais poluente do planeta, ficando atrás apenas da petrolífera. Se você veste calças ou malhas de poliéster, por exemplo, fique sabendo que a fibra sintética mais usada na indústria têxtil em todo o mundo não apenas requer, segundo especialistas, 70 milhões de barris de petróleo todos os anos, como demora mais de 200 anos para se decompor.

A viscose, outra fibra artificial, mas feita de celulose, exige a derrubada de 70 milhões de árvores todos os anos. E, apesar de natural, o algodão é a uma fibra cujo cultivo é o que mais demanda o uso de substâncias tóxicas em seu cultivo no mundo – 24% de todos os inseticidas e 11% de todo os pesticidas, com óbvios impactos no solo e na água. Nem mesmo o algodão orgânico escapa: uma simples camiseta necessitou de mais de 2.700 litros de água para ser confeccionada. Pois é, eu como alimentos orgânicos mas ninguém fala da necessidade de ter roupa orgânica.

Energia fotovoltaica então é a solução? O que se houve falar disso hoje no Brasil também é algo impressionante. Segundo a ANEEL, o número de unidades que migrarão para sistemas de microgeração fotovoltaica no Brasil passará dos aproximados 70 mil atualmente, para mais de 1 milhão em 2020. Isso é um prato cheio pra quem vende a idéia de que energia fotovoltaica é ecologicamente correta, não precisaremos mais investir milhões nas hidrelétricas como Belo Monte, que devastam as florestas e matam os peixes.

Sobre isso, há alguns dados importantes a serem considerados:

– Energia Hidrelétrica é energia limpa e renovável assim como a fotovoltaica ou eólica, pois é produzida sem esgotar recursos da natureza;

– A Energia fotovoltaica é gerada a partir de placas fabricadas com silício, um material que, apesar de abundante na natureza, não é renovável e um dia se esgotará;

– Uma placa padrão de captação de energia fotovoltaica precisa de 2 anos para gerar a energia gasta para a sua produção;

Não estou aqui fazendo defesa das mega hidrelétricas, apenas trazendo informações que não são divulgadas nem pelas mídias oficiais nem pelas entidades de defesa do meio-ambiente. A reflexão que trago é que o ciclo de produção de energia fotovoltaica, considerando o sistema atual, é provavelmente mais danoso ao planeta do que a geração hidrelétrica, se consideramos as mesmas quantidades geradas.

O argumento principal que exponho é que não é a mudança da matriz energética que vai impactar na redução de impactos ambientais. A população cresce à taxa de 1,2% ao ano, podendo chegar a 12 bilhões de habitantes em 2100. A economia capitalista baseada no consumo estimula a cada ano o aumento desse consumo, que começa na extração de recursos naturais e destruição de espécies vegetais e animais,  impacta todo o ciclo de produção gerando emissão de gases e gasto excessivo de energia e água no processo de produção e transporte de tudo, tem o clímax na  ostentação dos consumidores e culmina em montanhas de lixo descartados na natureza.

Ou seja, mudar a matriz energética não vai resolver nada enquanto continuarmos trocando de carro(elétrico ou não), celular e computador todo ano, comprando roupas a cada mudança de estação, usando maquinas elétricas pra fazer qualquer tarefa e comendo carne todo dia no almoço e jantar.

Michael Reynolds, o arquiteto americano conhecido como “guerreiro do lixo”, ficou mundialmente conhecido após o documentário “Garbage Warrior”, que conta como enfrentou o sistema buscando construir casas autônomas e sustentáveis a partir de material reciclado. Em 2017, curioso para conhecer e saber como suas casas funcionavam, fiz um estágio na sua escola de construção de “Earthships”, nome que dá ao seu conceito habitacional.

Quando cheguei lá, à noite, em uma área isolada à beira da rodovia, o que primeiro me impressionou foi o fato de não haver iluminação. Toda a área externa do local era iluminada por pequenas luminárias solares fincadas no solo que serviam apenas para demarcar a entrada das cadas. Os alojamentos e casas também possuem pouquíssima iluminação artificial, e apenas geladeira como aparelho elétrico (Em algumas casas nem geladeira tinha, a cerveja gelava no quintal da casa, pois a temperatura lá batia 5 graus negativos fácil).

Estudando mais a filosofia das Earthships, compreendi que aquela situação não era radicalismo ou falta de recursos, mas uma forma de combater uma das reais causas da insustentabilidade no planeta: o consumo excessivo de energia,  sem necessidade. Também interessante é a abordagem que ele traz sobre a importância das casas serem autossuficientes, produzindo sua própria energia, reusando a água e tendo espaço para a produção da alimentação de seus residentes. Segundo Reynolds, a dependência dos sistemas de geração concentrada de energia e água nos deixa reféns da economia que estimula o consumo. E nesse ponto a energia fotovoltaica é bacana porque permite essa independência!

No livro “O Negócio é Ser Pequeno”, a relação do consumo com a destruição do meio-ambiente é tratada também de forma bem direta pelo autor, o inglês E.C. Schumacher, que já na década de 1970 explorou essa questão mostrando com dados que o caminho pelo qual a economia ocidental conduzia a humanidade trazia um futuro insustentável ao planeta. Sua filosofia, que sugere a economia budista como sendo uma solução sustentável, se converteu em uma escola, o Schumacher College, fundada em pelo indiano Satish Kumar em Londres. Uma das questões abordadas no livro é a influência da indústria do petróleo na economia,  recurso que se tornou o principal commodities nos dias de hoje. Lembram do estrago provocado pela paralisação recente dos caminhoneiros no Brasil? E já em 1972, Schumacher falava dos estudos que indicavam o fim do petróleo, baseado no crescente aumento de veículos à combustão no mundo. Petróleo no fim, precisamos de uma nova matriz energética pra monopolizar, não é mesmo Elon Musk?

Segundo a ONG Global Print Footwork, o estoque de recursos naturais do planeta disponíveis para o ano de 2018 se esgotou no dia 1º de agosto. Na calculadora de pegada ambiental deles, seriam necessários 1,78 planetas Terra se todas as pessoas tivessem o mesmo padrão de vida meu. Logo eu, que não como carne vermelha, procuro economizar água e reciclar sacolas de plástico. Fico pensando em quantos planetas precisaríamos para sustentar 6 bilhões de Elon Musk. Será que é por isso que ele pensa tanto em colonizar Marte?

Bem, hoje eu não me sinto mais tão culpado por usar canudinhos de plástico. Apesar de ainda me sentir vulnerável a cair em conversa  de empresário bonzinho me mostrando selo verde. Penso que o buraco não está só na camada de ozônio, está muito, mais muito mais embaixo, e não sei se tem ONG defensora do meio-ambiente disposta a me mostrar o rombo. Tenho dúvidas se trocar de bicicleta todo ano é mais prejudicial ao meio ambiente do que ficar com meu carro velhinho soltador de fumaça. Acho que o que posso fazer hoje pelo meio ambiente é desconfiar de quem se diz sustentável, além de avaliar o que eu preciso de verdade pra viver e a partir daí tentar consumir menos.