Aposto que você responderia sim a essa pergunta. Se você foi criado no Brasil, na Europa ou nos EUA, eu arrisco dizer, com bastante probabilidade de acertar, que você se comporta mais como ditador(a) do que como democrático(a). 

Constatei essa triste, mas libertadora realidade há pouco tempo, por conta da minha busca por autoconhecimento e felicidade. 

Durante mais de 25 anos administrei minha empresa da forma mais empenhada possível, com todos os recursos aprendidos na escola tradicional de administração. Usei muito do que aprendi nos cursos, nas interações com outros empreendedores, com meus Pais e com a minha própria experiência prática.

Mas, como todo empreendedor, além de precisar ter conhecimento técnico da minha atividade, dos produtos, serviços, processos de produção, compras, vendas, finanças, também precisei dar conta da área mais significativa para quem empreende, que é lidar com pessoas. Isso sempre foi uma tarefa deveras complicada, apesar de todos os meus esforços!

Ao longo dessa jornada, tentei de tudo o que estava ao meu alcance. Passei muitas fases difíceis. Muitas foram as vezes em que conflitos sérios se estabeleciam entre as pessoas, gerando consequências negativas em todas as áreas da empresa. 

Quando isso acontecia, eu era obrigado a lidar com a indigesta tarefa de solucionar os conflitos. Quase sempre acabava mal. Ou por eu colocar panos quentes tentando amenizar o conflito, ou então tendo que utilizar dos métodos tipo ameaça e punição. Não raro, eu tinha que demitir alguém. Era o recurso que sobrava e que eu conhecia.

Até “funcionava” por um tempo. A equipe se acomodava novamente. A “harmonia” voltava. Mas não tardava e o clima esquentava de novo. Logo uma nova “Ovelha Negra” despontava. Ou a própria equipe tratava de eleger uma. Era certo! Eu até já tinha aceitado isso como uma coisa normal. Sabia que, de tempos em tempos ia acontecer, como se fossem ciclos.

Em 2012, não satisfeito com esse tipo de situação, ainda buscando entender de gente, encontrei o PLO (Programa de Liderança Orgânica) do Movimento Orgânico, trazido pelo Renan Carvalho (www.orgânicas.org). 

Basicamente o que é Liderança Orgânica? Liderança sem veneno? Isso mesmo! E quais tipos de venenos? Imposição, ameaça, persuasão, julgamentos, punição e recompensa, jeitinho, controle de pessoas, metas numéricas, etc. Nem me dava conta que usava tantos venenos!!! 

De lá para cá, muita coisa foi mudando. As poucas demissões que tivemos que fazer foram por conta da atual crise econômica. Os conflitos que surgem acabam tendo outra tratativa, bem mais consciente. São mais tranquilos de se resolver. A equipe mudou? Sim, acho que também mudou. Mas se mudou, muito foi em razão dos líderes terem mudado. O principal problema era o dono da empresa. Eu mesmo!

Uma das dinâmicas do Programa me revelou para mim mesmo. Mudei a partir desse exercício. A dinâmica consistia em descobrir que tipo de liderança cada um de nós exercia; Ditadora ou democrática??? Um verdadeiro exercício de choque, de auto percepção, de desilusão! 

Sempre me achei um líder democrático. Achava que dava liberdade, autonomia, que incentivava as pessoas a criarem. Mas não entendia porque elas não se comprometiam e não se responsabilizavam pelas coisas na empresa.

Depois dessa dinâmica, ainda sem muito querer aceitar, descobri que eu não tinha nada de democrático. Me vi um Ditador. Um “ditador bonzinho”, como me intitulei na época.  Sempre querendo o bem de todos, sempre querendo criar um bom ambiente de trabalho, mas usando métodos equivocados. Era inegável minhas boas intenções. Só que não surtiam efeitos positivos. Eu acabava ficando frustrado. Minha vontade era de vender a empresa, fechar, sei lá, fazer outra coisa.

Ao me perceber, depois desse acordar, comecei a mudar meus procedimentos. Comecei a desconstruir minha forma de pensar. Comecei a plantar as premissas orgânicas. Os métodos baseados na colaboração, na abordagem dos erros como oportunidades de aprendizado, na eliminação dos julgamentos, nos feedbacks de responsabilização, nas tomadas de decisões descentralizadas aproveitando as idéias da equipe, nos acordos de conduta, nos combinados entre as partes para o bom andamento dos trabalhos, etc, fizeram com que o peso de administrar a empresa ficasse cada vez mais leve.

Posso dizer que houve uma verdadeira transformação! Estamos mais eficientes, mais comprometidos, mais livres, mais autônomos, mais criativos e mais responsáveis, todos! De quebra, os resultados numéricos da empresa melhoraram bastante! E essa transformação se estendeu para as demais áreas da minha vida. Mudei meu jeito de pensar e agir com minha família, amigos, vizinhos, clientes, fornecedores, representantes e todas as pessoas que encontro.

Vale ressaltar que essa transformação não ocorre da noite para o dia. Estamos nesse trabalho de desconstrução e reconstrução do modo de pensar e agir há 6 anos. Afinal, foram muitos anos praticando ações baseadas em crenças equivocadas e limitantes.

Hoje entendo que ser um líder democrático requer aprender habilidades, cuja nossa cultura não nos possibilitou aprender. Fomos educados para obedecer. Quem obedece não pensa, cumpre ordens. E quando nos tornamos pais, patrões ou líderes, seguimos o mesmo padrão aprendido dos professores da vida. O padrão de controlar, de ordenar, de mandar, de persuadir, podando sem perceber, a criatividade, a iniciativa, a liberdade e a autonomia das pessoas. Daí não entendemos porque os comandados não se comprometem, não se responsabilizam, tornam se infelizes e revoltados.

E aí, conseguiu ver alguma semelhança com minha história? Seus pais, professores, patrões e líderes eram diferentes dos meus? Continua se achando democrático (a)? Se não tem dúvidas ótimo! Se pintou alguma dúvida, ótimo também! Saiba que existe um caminho. Basta aumentar a auto percepção. Essa é a chave!

Gratidão!