Outro dia uma amiga me pediu um aconselhamento sobre qual seria o limite da ajuda, ou seja, quando o desejo ou ato de ajudar alguém poderia ultrapassar um limite e começar a gerar uma zona de conforto, ou vitimização, ou mesmo ser considerado a tentativa de se exercer um controle sobre a pessoa. E sua dúvida girava em torno do que seria então, o certo a se fazer.

Confesso que foi uma pergunta bem difícil para mim. Primeiro porque procuro me fundamentar no positivismo onde não existem verdades, somente possibilidades, e assim sendo, não há como definir certo e errado. Penso mais no sentido de algo ser útil ou não, fazer sentido ou não, naquele momento.. E diante da pergunta dela, como sempre procuro fazer quando me pedem aconselhamentos, tento deixar fluir qualquer coisa que saia do meu coração naquele momento, com uma intenção sincera e sem racionalizar muito em cima. Não sei se meu aconselhamento efetivamente foi útil para minha amiga, mas depois, pensando comigo mesmo, vi uma oportunidade maior de refletir sobre esse tema.

Será que existe um limite para empatia, ou para compaixão ? Será que o simples alívio do sofrimento do outro já é o suficiente ? Será que não corremos o risco de gerar uma zona de conforto onde a pessoa também não se ajuda ? Qual é a expectativa que geramos em cima de nossa ajuda ? Será que muitas vezes não queremos mais do que podemos ? Estas são algumas das perguntas que me levaram a esta reflexão, e talvez à possibilidade de contribuir para que cada um de nós busque nossas próprias respostas.

Empatia – a maravilha que nos conecta

É fisiológico para nós seres humanos, ao vermos alguém em uma situação difícil ou sentindo uma dor, principalmente alguém próximo a nós, sentirmos também naquele momento, uma dor semelhante. Esta maravilha fisiológica chama-se empatia, e nós a desenvolvemos tanto e tão melhor que os outros animais, que graças a ela até pudemos nos diferenciar à condição de seres humanos. Isso mesmo, segundo Darwin, esta é a característica que melhor nos permitiu evoluir como espécie, esta capacidade de sentir uma dor semelhante ao que outro sente em um nível absolutamente superior ao de qualquer outro ser vivo.  E ela tem uma utilidade muito grande para nós. Ao sentirmos esta dor somos levados a agir no sentido de ajudar a outra pessoa a sair do estado em que ela se encontra, e assim garantimos nossa sobrevivência como espécie.  

Voltando no tempo, durante centenas de milhares de anos foi bem mais simples para nossos ancestrais caçadores-coletores usarem a empatia como algo útil. Porque uma situação de dificuldade ou dor, na época deles, era apenas uma situação real. Por exemplo, alguém estava sendo atacado por um predador, ou caiu em um buraco, ou estava com fome, ou perdeu um filho ou uma mãe. E então a empatia fazia o seu papel, ou seja, as pessoas próximas corriam para ajudar, para cuidar e para resgatar o mais rápido possível a pessoa daquela situação de dor em que ela se encontrava. E imediatamente após estas ações, estava tudo resolvido, e seguia a vida. Ou seja, as pessoas juntas conseguiam se ajudar e superar rapidamente as situações reais que causavam dor. E a empatia era muito útil para que tais ações concretas fossem realizadas, e para que assim as pessoas se protegessem, colaborassem e se mantivessem unidas umas às outras.

Porém, o com o advindo da revolução agrícola e da civilização, aconteceu algo estranho. Os seres humanos passaram a viver muito mais em função de expectativas do que de realidade, e isso fez com que passassem a cultivar muito mais os julgamentos sobre coisas não reais. E surgiu então um tipo diferente de dor, à qual chamo de sofrimento…  O sofrimento* é uma dor que permanece, que não é superada, pois não é fruto de situações reais, e sim de julgamentos e de expectativas não atendidas, ou seja, de situações mentais, imaginárias…. E o sofrimento complicou bastante as relações…  Mas independente desta dificuldade, a empatia continua exercendo seu papel, ou seja, ao vermos outra pessoa sentindo dor, ou sofrendo, é claro que continuamos sentindo uma dor semelhante àquela que ela sente, e vamos procurar fazer alguma coisa que possa resgatá-la desse sofrimento.   

*vale ressaltar aqui que este significado de dor e sofrimento não é o mais didático, mas sim uma definição que eu escolhi para poder separar as duas coisas de forma pragmática, ou seja, da maneira mais útil para podermos agir sobre eles. Portanto, talvez muito do que você leia neste texto como “dor” pode ser interpretado em outros textos ou como “sofrimento” e vice-versa. Não importa para nós qual significado é correto, o que importa é a utilidade deste significado que escolhemos para aplicação prática em nossa vida.

Muito bem. Então a partir do momento em que transformamos a dor (situação real) em sofrimento (situação mental), complicamos muito as relações, e tornou-se um desafio bem maior resgatar as pessoas desse novo tipo de dor que permanece, ou seja, do sofrimento. A maioria de nós, até hoje, não sabe muito bem como fazer esse tipo de resgate, e por não saber como, acaba caindo em armadilhas gerada pela própria fisiologia da empatia.  Armadilhas como: passar a sofrer junto com a pessoa, ou nos tornarmos apenas um alívio de seu sofrimento gerando dependência. Em ambas estas armadilhas não conseguimos ajudar a pessoa de forma efetiva, mas somente paliativa, ou seja, o sofrimento até alivia um pouco na hora, mas depois volta em igual, e às vezes até em maior, intensidade.

As armadilhas da empatia

A primeira armadilha ocorre quando caímos no mesmo nível de sofrimento da pessoa e também ficamos presos ali por havermos aceitado suas as expectativas e julgamentos como reais (ou verídicas). Ao contrário do que aparenta, tal armadilha é prejudicial para ambas as partes… Se sentimos a dor da empatia é porque precisamos fazer algo para eliminá-la, seja em nós ou no outro, ou seja, precisamos agir na busca de um resultado concreto que acabe com a dor. Empatia é um indicativo de ação, de fazermos algo que seja útil tanto para o outro como para nós… Por exemplo, se minha filha de 3 anos caiu e machucou o braço, e chora de dor, eu como pai também sinto essa dor, meu coração se aperta, e imediatamente faço algo para sanar sua dor e curar seu machucado… Uma vez que faço algo, a dor é eliminada e o processo curativo passa a ocorrer… Então ela vai brincar de novo… Este é um exemplo da empatia produzindo ação e eliminando dor de forma permanente.   

Porém, com o sofrimento o processo é bem diferente… Com o sofrimento nós cultivamos emoções destrutivas que perduram e que causam inúmeros malefícios à nossa saúde e às nossas relações. Sofrimento é uma dor estagnada, que eu não posso sanar com um curativo, ou com uma ação. Como o sofrimento possui origem mental, não existe ação real que possa eliminá-lo, somente ações mentais, e ações mentais dependem também da vontade e do esforço da própria pessoa, não dependem só de minha ajuda ou de minha ação…  É como se minha filha, depois de machucar o braço e curar-se, ficasse com trauma de brincar, e não quisesse mais brincar… E aí ela visse outras crianças brincando, ficasse com vontade de brincar, mas não brincasse de jeito nenhum com medo de machucar o braço de novo… Isso é sofrimento mental… É como se a dor do braço ainda estivesse lá, apesar de não estar mais… E somente uma ajuda psicológica poderia fortalecê-la para que, através da vontade e do esforço dela, ela pudesse voltar brincar novamente… Claro que este exemplo é irreal porque uma criança de 3, 4, 5 anos não vivencia esse tipo de sofrimento. A beleza de uma criança é que ela ainda não criou expectativas e julgamentos, então mesmo com o braço machucado, com curativo, gesso e tudo, se parou de doer, ela já está lá brincando de novo… Só que à medida que vai crescendo, adotando crenças e tornando-se adulta, o sofrimento mental passa a ocorrer com muito mais frequência…

Ao cairmos em um sofrimento mental do outro, nós estamos caindo em uma armadilha da empatia. Pois teremos muita dificuldade para, de fato, ajudar a outra pessoa, e é bem provável que, em algum momento, também precisaremos de ajuda.

É como se não soubéssemos nadar e pulássemos em águas profundas para tentar salvar alguém que está se afogando, ou se tentássemos salvar alguém que está preso em uma corrente elétrica puxando a pessoa com as mãos. Em ambas estas situações, ou vamos nos afogar junto com a pessoa, ou vamos ficar presos na corrente elétrica junto com ela. Ou seja, apesar de sermos empáticos, de havermos sentido a dor da pessoa que estava em apuros, e de agirmos no sentido de salvá-la, nossa ação foi desprovida de sabedoria. E acabamos na pior junto com ela… Esse mesmo tipo de ação, desprovida de sabedoria, nos leva também a aceitar como reais, tanto as expectativas como os julgamentos de uma pessoa que está sofrendo. E assim, adotamos o mesmo sofrimento dela, tornando assim anda mais difícil resgatá-la desse estado.  

Outra armadilha que a empatia desprovida de sabedoria pode nos pregar é o alívio paliativo que gera um estado de dependência. Nós sentimos a dor da pessoa e agimos no sentido de ajuda-la, porém, ao invés de resgatá-la do sofrimento, nós só promovemos um alívio instantâneo, paliativo… E a pessoa continua presa em suas expectativas e julgamentos… E por continuar presa, seu sofrimento sempre voltará, e ela novamente precisará de nossa ajuda para aliviá-la… Esse tipo de armadilha vai nos desgastando com o tempo pois, apesar de estarmos fazendo um esforço, nós não estamos efetivamente contribuindo para que o sofrimento mental da pessoa acabe. E muitas vezes o que fazemos é contribuir para que a pessoa continue se vitimizando, ou entre em uma zona de conforto e torne-se dependente de nossa ajuda. Nesse caso é bem provável que nós mesmos passemos a sofrer uma carga emocional destrutiva desnecessária. Ou seja, nós não adotamos o sofrimento mental do outro, mas nós desenvolvemos o nosso próprio. Seja por nos sentimos impotentes para sair da relação de dependência, ou frustrados e raivosos por não ver a pessoa evoluir e sempre bater na mesma tecla de sofrimento, ou mesmo por entrarmos em conflito com a pessoa tentando exercer um controle forçado sobre ela. Nesse caso não significa que aceitamos o julgamento e as expectativas da pessoa como válidas (é mais provável que não aceitamos) mas, por não conseguir influenciá-la a sair daquele estado, começamos assim, nós mesmos, a gerar nossas expectativas e julgamentos sobre a pessoa.

A compaixão, empatia com sabedoria

Como evitar essas armadilhas da empatia? Agora podemos refletir sobre compaixão, que em minha definição é um estado de empatia muito mais consciente**, pois carrega consigo também a sabedoria… Em um estado de compaixão, nós sentimos a aflição de ver alguém se afogando, porém, como não sabemos nadar, nós não pulamos na água para tentar salvá-la, nós tentamos desesperadamente chamar alguém que sabe nadar, ou jogamos algo para que a pessoa possa se segurar, enfim, tomamos atitudes sábias, que efetivamente venham a tirar a pessoa da água e não nos afogue junto com ela. A mesma coisa ocorre ao sentirmos a aflição de ver alguém preso na corrente elétrica. Vamos correr desesperadamente para desligar a energia, ou para buscar um isolante de borracha ou madeira que nos permita dar um empurrão na pessoa que está presa. Enfim, vamos tomar uma atitude sábia que não nos prenderá à corrente elétrica junto com a pessoa.

**mais uma vez, este significado de empatia e compaixão pode não bater com significados didáticos, mas é uma definição que eu também escolhi com a finalidade de separar as duas coisas de forma pragmática, ou seja, de forma útil e aplicável em nossa vida. Portanto, semelhante à “dor e sofrimento” o que você ler aqui como “empatia” pode ser interpretado em outras leituras como “compaixão” e vice versa. E também não importa para nós qual significado é correto, importa o quanto esse significado seja útil para nós, de maneira que, efetivamente, possamos agir com empatia e compaixão na nossa vida.

A compaixão por alguém que está em sofrimento traz consigo esta sabedoria. É claro que a empatia está muito presente, ou seja, em um primeiro momento vamos sentir a dor da pessoa, vamos abraçar e acolher a pessoa, mesmo em seu sofrimento mental. É claro que esta dor empática que sentimos pode nos fazer chorar junto com a pessoa validando aquele seu estado de sofrimento… Tudo isso é importantíssimo porque neste momento estamos deixando fluir a nossa natureza de empatia e estamos nos conectando profundamente com a pessoa…  Porém, ao sentir dor, validar e acolher o sofrimento da pessoa, o que é absolutamente saudável e necessário, permanecemos também em um estado de lucidez e sabedoria para não corrermos o risco aceitar como válidos as expectativas e julgamentos da pessoa que estão produzindo e alimentando o sofrimento dela. Porque se aceitarmos estas expectativas e julgamentos como válidos ou verídicos, certamente vamos começar a sofrer junto com ela, e teremos muito mais dificuldade em contribuir para que a pessoa, de fato, supere este estado em que se encontra.  

Um exemplo prático. Duas pessoas discutiram no trabalho, e uma delas se sentiu ofendida pelo que a outra disse. Eu sou o mediador e preciso restabelecer a harmonia. Vou conversar com a pessoa que se sentiu ofendida e ela está até chorando de raiva. Então ela narra a história e sua narração já vem carregada de vários rótulos e julgamentos para pessoas que fazem esse tipo de coisa que fizeram com ela… Ao ouvi-la eu tenho 2 opções:

  • A primeira é sentir a empatia, sentir sua dor, e então aceitar como válido os julgamentos e rótulos que ela me trouxe. Nesse caso certamente eu também ficarei chateado ou enraivecido com a outra pessoa que fez aquilo. E se eu assim ficar, não conseguirei fazê-la pensar diferente e, portanto, não conseguirei aliviar sua angústia naquele momento. Talvez, ao validar seu julgamento, eu até reforce a raiva que ela esteja sentindo. E passe a sentir essa raiva junto com ela. E depois certamente também vou ter muito mais dificuldade em conversar com a outra pessoa, e nem sei mais se conseguirei restabelecer a harmonia…
  • A segunda opção que tenho é também sentir a empatia, manifestar esta empatia por vê-la triste, por vê-la em dor, e manifestar solidariedade para com sua dor, porém, sem aceitar como válido nada do que ela me disse, porque tudo que ela me disse não é uma verdade, é somente uma possibilidade (é claro que também não vou dizer isso pra ela…rsrs). O que vou fazer é usar de sabedoria, vou compreender que esta possibilidade que ela me trouxe é o julgamento dela baseado em suas expectativas, e que este seu sofrimento é consequência desses seus julgamentos e expectativas. Entendendo isso, tendo demonstrado a empatia e validado seu sofrimento, eu posso então agir no sentido de tentar abrir outras possibilidades para ela: Será que a outra pessoa não fez isso sem pensar ? sem intenção ? Será que não estava em um momento ruim ? Será que se vocês conversarem e ela explicar melhor as coisas não ficam mais claras ? Será que, como trabalham juntos, não é melhor que estejam de bem uma com a outra ?… Enfim, com sabedoria talvez eu consiga fazê-la refletir sobre outras possibilidades além das suas próprias expectativas e julgamentos, permitindo assim que ela venha a acolher uma nova possibilidade que acalme sua angústia e afaste-a de seu sofrimento mental… Talvez assim ela perceba que possa ter julgado de forma precipitada, ou equivocada, e que não vale a pena levar adiante este desentendimento, e nem estas emoções destrutivas…  Depois então, eu poderia fazer o mesmo com a outra pessoa e, posteriormente, talvez até consiga colocar ambas para esclarecer tudo de forma tranquila, e assim restabelecer a harmonia.  

Esta seria a diferença entre agir com só empatia, aceitando as expectativas e julgamentos da pessoa como verdades, passando a cultivar as mesmas emoções destrutivas que ela, e complicando assim a possibilidade de realmente tirá-la do sofrimento. E agir com compaixão (empatia + sabedoria), aceitando o sofrimento da pessoa como legítimo, porém não aceitando as expectativas e julgamentos da pessoa (que produziram aquele sofrimento) como verdades, mas apenas como uma possibilidade. Deixando abertas assim, outras possibilidades que podem ajudá-la a abandonar aquelas expectativas e julgamentos, e assim sair daquele sofrimento.

O primeiro complicador, a vontade da pessoa

Bom, mas como o ser humano é complexo, sempre existem alguns “poréms” !!

O primeiro é que por melhor que seja nossa intenção e por mais perfeita que seja nossa ação, nós não temos controle sobre outro ser humano. Nós temos a responsabilidade de ajudar tentando influenciá-lo, porém, não existe nenhuma garantia de que a pessoa realmente queira abandonar seu sofrimento ou seu julgamento. E se a pessoa não quiser, ou não estiver em um momento adequado para isso, simplesmente não vamos conseguir resgatá-la deste estado. E é importante termos a ciência e a percepção disso, para podermos aceitar quando isso acontecer.

No caso do mesmo exemplo que citei, a pessoa simplesmente pode se fechar e não aceitar nenhuma outra possibilidade que não seja seu próprio julgamento. Talvez ela esteja totalmente presa em seus motivos do passado, talvez aquela situação despertou alguma lembrança e alimentou um verdadeiro ódio que tinha por pessoas que já fizeram isso com ela. E, portanto ela rejeita qualquer possibilidade de reconciliação. Nesse caso então, minha ajuda poderia ser somente paliativa, ou seja, eu posso sentir empatia, validar seu sofrimento, mas não vou conseguir afastá-la desse sofrimento.

Nesse ponto eu corro o risco de cair naquela segunda armadilha, ou seja, ela pode continuar tendo conflitos com o colega e ficando mal, continuar com seus julgamentos e sofrimentos, e poderá encontrar em mim uma válvula de escape, que sempre estará ali para aliviar suas angústias e concordar com ela…  Só que isso não resolverá nunca o problema, e a partir de determinado momento será desgastante para mim também, pois é bem possível que logo eu comece a julgá-la e me sinta mal toda vez que ela vier com suas reclamações… 

Então, para evitar cair esta armadilha, e sabendo que a pessoa não está disposta a sair do próprio julgamento, a sabedoria nos deve conduzir por outro caminho… O caminho de, com amor e serenidade, estabelecermos o limite da nossa influência… Nesse caminho o que eu faço?.. Procuro mostrar as consequências de ela manter-se presa a este julgamento, tanto para ela como para a empresa… Mostrar emoções destrutivas e conflitos que ela teria que conviver por pensar daquela forma…  Mostrar que isso pode afetar não só ela como também outras pessoas… E finalmente estabelecer o limite colocando-a diante de uma escolha, que seria a seguinte: ou ela decide dar uma chance para abrir possibilidades e rever esse seu julgamento –   nesse caso contando com minha total ajuda e dedicação, ou, em caso negativo, mostrar que a melhor decisão pra ela talvez seja se afastar daquele ambiente, ou sair da empresa, e assim não ter que conviver mais com estas ocorrências e sofrimentos… Esse seria o limite da minha influência: o de fornecer uma escolha. Dali pra frente dependeria só dela, ou seja, enxergando as possíveis consequências, ela teria que pensar se está disposta a continuar recebendo minha ajuda desde que se abra para uma nova possibilidade, ou não, se está disposta a seguir o seu caminho, com seus julgamentos e sofrimentos, fora dali…

Ao estabelecer o limite nós estamos agindo com compaixão e estamos também ajudando a pessoa.  Pois ao fazê-la perceber que nossa ajuda depende de uma decisão dela, ou seja, que para sair daquela situação de sofrimento a pessoa precisa fazer a parte dela, para depois contar conosco, isso pode justamente ser o empurrão que falta para tirá-la de uma zona de conforto ou de um estado de vitimização… Pode ser o chacoalhão final que a pessoa esteja precisando para despertar a vontade de superar o seu próprio sofrimento mental… E se ela perceber isso, irá tornar-se muito grata a nós por haver conseguido ajuda-la a superar seu sofrimento.  

Porém, se a pessoa não ceder de jeito nenhum, e preferir ir embora, então nós também podemos ficar tranquilos…  Tranquilos porque fizemos o que estava ao nosso alcance fazer, porque procuramos fazer o melhor que podíamos para resgatar a pessoa daquele sofrimento, tranquilos porque também estávamos cientes de que não dependia só de nós, mas que precisaríamos também que a pessoa fizesse sua parte… E se a pessoa não estava disposta a fazer a parte dela e preferiu ir embora, é porque ela sabe melhor do que nós, o que ela precisa nesse momento. Se a escolha dela é continuar passando por mais sofrimentos semelhantes, quem somos nós para dizer que ela está errada? Nós podemos tentar influenciá-la ao máximo para resgatá-la daquele sofrimento mental, e foi exatamente isso que fizemos, mas se ela escolher continuar nele, é porque este é o caminho mais apropriado para seu desenvolvimento e aprendizado nesse momento. E ela fez esta escolha porque o coração dela sabe disso. A sabedoria da compaixão leva tudo isso em consideração. E quando agimos dentro desta sabedoria, sempre conseguimos nos manter em um estado de serenidade, sem nos deixar afetar por emoções destrutivas. Qualquer que seja a decisão final da pessoa.   

Segundo complicador, pessoas muito próximas a nós

Existe também o complicador de ter que lidar com pessoas muito próximas a nós, como uma mãe, pai, irmã ou filho. Nesse caso, o exercício da sabedoria torna-se ainda mais importante e relevante. Porque talvez não possamos nos afastar da pessoa, e talvez tenhamos que conviver com a pessoa mesmo ela estando apegada a estes seus julgamentos e sofrimentos. E com uma pessoa próxima, a dor da empatia é sentida com muito mais força, o que eleva e muito a chance de julgarmos e de também sofrermos junto com a pessoa…  Portanto, nesse caso é mais importante ainda estabelecermos o limite de nossa influência. Esse limite precisa ser mais claro para nós mesmos, de maneira que não nos deixemos levar pelas emoções que envolvem a proximidade. E também é importante irmos estabelecendo pequenos limites na relação com a pessoa, ou seja, ir aos poucos, gerando novas escolhas para ela, de maneira que ela sempre tenha a oportunidade de refletir entre fazer a parte dela ou continuar sofrendo, e assim, quem sabe, ir se libertando do sofrimento… A responsabilidade da ação em resposta à dor da empatia que sentimos ao vê-la sofrendo continua sendo nossa. Ação no sentido de fazermos o nosso melhor para influenciá-la e contribuir para que ela saia de seu sofrimento.

E o limite nosso é estarmos sempre cientes de que nossa ação e nossa influência pode não funcionar, pode não dar o resultado que desejamos… Porque talvez o momento ou o entendimento da pessoa não seja o mesmo nosso, ou porque talvez ela pode continuar optando pelo o julgamento e pelo cultivo do próprio sofrimento, ou talvez porque erramos também, nossa ação não foi a mais eficaz naquele momento … É importante estarmos cientes desses limites, porque estando cientes, a sabedoria da compaixão nos dará sempre a serenidade que precisamos para lidar com as escolhas da pessoa.  Serenidade para entender que, por enquanto, talvez aquele sofrimento possa estar sendo necessário para o aprendizado da pessoa, e por isso ela insiste em optar por ele…  Serenidade para entender que não precisamos e nem devemos trazer o sofrimento da pessoa para nós, não precisamos aceitar seus julgamentos e expectativas como verídicos, e muito menos cair na armadilha de criarmos uma dependência que continue vitimizando a pessoa. Serenidade mesmo para aceitar nosso erro, e pensar em uma nova alternativa para ajuda-la, porque devemos sim, continuar fazendo a nossa parte, que é procurar agir para ajudar a pessoa a sair desse sofrimento.  Fazendo aquilo que depende de nós, e procurando gerar consciência da parte que depende dela.

Se mesmo fazendo nosso melhor naquele momento, a pessoa continuou fazendo a escolha pelo julgamento e pelo sofrimento… Então tudo bem. É sinal que ainda serão necessárias mais etapas. Não devemos nunca nos frustrar com isso. Esse é o nosso principal limite, o de não nos deixarmos carregar com emoções destrutivas… Quando tivermos outro momento ou outra oportunidade com a pessoa, teremos novamente a chance e mostrar a ela talvez uma nova possibilidade, ou de gerar para ela talvez uma nova escolha, que talvez possa vir a dar o resultado que, dessa vez, ainda não ocorreu… Assim, continuamos sempre com a responsabilidade de ajudá-la e de sempre criar alternativas e escolhas onde, às vezes precisamos ser muito amáveis e acolhedores, às vezes precisamos ser duros e rigorosos, mas sempre praticando a compaixão, ou seja, agindo com sabedoria, livre de emoções destrutivas e com a mente serena por estarmos cumprindo esta responsabilidade que nos cabe, por estarmos fazendo o nosso melhor.

Posso compartilhar o exemplo de uma relação que tive com minha mãe antes de ela ter sido levada por um câncer que, durante 3 anos e meio, a fez sofrer muito… A parte real do sofrimento ou seja, a dor que ela sentia como consequência da doença, nós sentíamos muito e procurávamos aliviar com todo o tratamento possível… Porém, existia também uma parte de sua dor que era um sofrimento mental, fruto de culpas que ela sentia, do julgamento que tinha em relação a doença, e da expectativa que gerava de se curar… Eu morava longe, conversava com ela sempre por telefone e poderia estar com ela uma ou duas vezes ao ano… Então sempre que falava ou estava com ela, sentindo sua dor, eu procurava agir naquilo que estava sob meu controle, no caso sempre tentando abrir novas possibilidades para aquele seu sofrimento mental, tentando afastá-la do sentimento de culpa, do julgamento e da expectativa. Porque assim, mesmo apesar da doença, ela ainda poderia viver momentos felizes… E enquanto estava conosco, em diversos momentos nós conseguíamos que ela vivesse esses momentos… Porém, por mais que eu e meus irmãos tentássemos, nós não conseguíamos afastá-la em definitivo desse sofrimento mental. Quando estava sozinha essas culpas e julgamentos continuavam sendo muito fortes dentro dela… Essa era uma escolha dela… O sentimento de compaixão nos permitia entender isso naquele momento, e aceitar o caminho que ela estava escolhendo trilhar, sem trazer aquele sofrimento mental dela para dentro de nós. Mas sempre nos compadecendo com sua dor, e sempre procurando agir, fazendo o nosso melhor para influenciá-la a enxergar outras possibilidades e a afastá-la daquele sofrimento mental que cultivava.  

Esta experiência com minha mãe é o resumo de uma vivência de compaixão com uma pessoa próxima. Porque eu sentia a dor de minha mãe, e sempre que sentia, procurava agir naquilo que estava sob controle, que era tentar afastá-la de suas culpas, julgamentos e expectativas, e ajudá-la a vivenciar felicidade em seu momento presente. Sempre agi neste sentido. Porém, eu sempre tive consciência que, pensar assim em definitivo e eliminar o sofrimento mental era algo que dependia mais dela, e que no final das contas, eu precisava respeitar a escolha dela. E justamente por respeitar sua escolha, nunca trouxe para mim, ou desenvolvi comigo, um sofrimento mental fruto aquela situação. Pensando assim consegui, naturalmente, manter um estado de serenidade e paz interior diante daquela situação, ou seja, nunca adotei para mim nenhum tipo de expectativa, julgamento ou emoção destrutiva. Eu sentia a dor da empatia e eu agia, mas eu não sofria. Eu entendia. E no final, ao ser levada pelo câncer, minha mãe fez questão de esperar para partir em meus braços, em um momento único nosso, um momento onde pude passar para ela, todo aquele sentimento de paz e serenidade que sempre mantive dentro de mim.

E o que é certo afinal ?

Não sei o que é certo e nem dá para saber, pois certo e errado são julgamentos pessoais que prefiro não fazer. O que uso para me balizar é aquilo que me parece lógico, provável e útil até esse momento (porque pode ser que amanhã também não seja mais). Seguindo esta linha de raciocínio acho que consigo resumir tudo que escrevi em alguns pontos principais, que espero também ser lógico e útil para você que está lendo:

  • A empatia é a principal característica que nos define como humanos. Darwin nos trouxe uma teoria muito lógica demonstrando isso, e o nosso próprio corpo é uma grande evidência disso. Assim sendo, nada mais natural para um ser humano do que sentir a dor que outro ser humano sente, e agir no sentido de fazer algo para tirá-lo desse estado de dor. Isso é nossa natureza. Isso é pré-requisito. Todos devemos agir assim, e de fato, todos agimos assim. Se alguns não agem assim com todos, seguramente agem com aquelas poucas pessoas pela qual sentem afeto. E se não agem com empatia quando deveriam agir, é porque emoções destrutivas como medo e raiva, e os seus julgamentos, abafaram o instinto natural da empatia, o que sinaliza uma pessoa que também está em sofrimento, e que também precisa de nossa ajuda.
  • Existe a dor, fruto de algo que está acontecendo nesse momento com a pessoa (dor física, doença, perda, perigo real) e o sofrimento, que são emoções destrutivas fruto de algo que a pessoa está imaginando ou produzindo com sua mente (expectativas, julgamentos e crenças). Enquanto a dor é útil e necessária, o sofrimento é prejudicial e desnecessário. Portanto devemos, a todo custo, evitar sofrimentos provocados por emoções destrutivas em nossa vida, pois existem muitas evidências de que tais sofrimentos são muito nocivos tanto para nossa saúde como para nossas relações. Portanto, não faz o menor sentido nutrirmos expectativas e julgamentos que geram esse tipo de emoção destrutiva. Não faz o menor sentido prejudicarmos a nós mesmos para tentar ajudar o outro com muito pouca chance de conseguirmos. Não tem lógica. Ou seja, só podemos ajudar de fato uma pessoa em sofrimento se contribuirmos para resgatá-la de suas emoções destrutivas e julgamentos. E só conseguimos resgatá-la se não nos deixarmos levar pelas mesmas emoções destrutivas e julgamentos.
  • Fomos evolutivamente preparados para usar nossa empatia no sentido de agir para resgatar outras pessoas de um estado real de dor, mas não para resgatá-las de um estado de sofrimento provocado por uma mente cheia de emoções destrutivas. Por esse motivo caímos em algumas armadilhas da empatia: 
    1. Adotar as expectativas e julgamentos da pessoa como verídicas e começarmos a sofrer junto com ela.
    2. Ficar somente aliviando o sofrimento da pessoa de forma paliativa, sem conseguir resgatá-la daquele estado de forma permanente, e com isso nos desgastarmos e sofrermos.

Em ambas armadilhas nós acabamos desenvolvendo emoções destrutivas em nós mesmos, ou seja, nos auto-prejudicando, e não conseguindo, de fato, resgatar a pessoa de seu sofrimento mental.

  • Para não cairmos nestas armadilhas é necessário desenvolvermos uma empatia com sabedoria, à qual definimos como compaixão. Ao agirmos com compaixão, estamos conscientes da diferença entre “dor real” e “sofrimento mental”, e conscientes de que o sofrimento mental possui um componente que não depende de nós, mas somente da própria pessoa que está sofrendo. Estando conscientes disso, podemos evitar as armadilhas da empatia e efetivamente ajudar uma pessoa, desde consigamos agir da seguinte forma:
    1. Não considerar as expectativas e julgamentos da pessoa como verdades, mas somente como uma possibilidade, e assim abrir novas possibilidades que possam afastar a pessoa de seus julgamentos (e sofrimentos).
    2. Estabelecer limites através da geração de escolhas que responsabilizam a pessoa pela parte que lhe cabe. Se a pessoa optar por fazer a sua parte, terá nosso apoio e ajuda, porém, se optar por não fazer, continuará sofrendo e não contará com nosso alívio paliativo. Ver-se diante de tal escolha é muito importante para que pessoas tenham oportunidade de despertar sua consciência. Lembrando que, a escolha é dela.
    3. No caso de pessoas próximas, além de estabelecer o limite da escolha acima, estabelecer também o próprio limite entendendo que, caso a pessoa opte por continuar sofrendo, temos que respeitar sua escolha naquele momento, sem julgá-la e sem sofrer com a escolha dela. Estando cientes que, sempre que necessário em um próximo momento, poderemos ser empáticos e agir novamente fornecendo novas possibilidades e novas escolhas na tentativa de resgatá-la de seu sofrimento. E assim indefinidamente enquanto convivermos com a pessoa.

Esta é a lógica que, até hoje, tem sido útil para mim. Me permitindo sentir a empatia e ajudar todas as pessoas que recorrem a mim, ou que precisam de minha ajuda e estão ao meu alcance, sejam elas próximas ou não, e também mantendo minha mente sempre serena, longe de qualquer julgamento ou emoção destrutiva. Mas eu também entendo que outras lógicas podem funcionar para outras pessoas. E portanto, outras lógicas também podem ser válidas…

Ah, Renan, isso sempre dará certo em qualquer situação de sua vida ?” Isso eu não tenho a menor ideia rsrs… Só posso dizer que até hoje tem funcionado… E sendo assim, qualquer situação nova que eu enfrentar em minha vida servirá para colocar esta lógica em evidência, e verificar se ela ainda continuará sendo útil ou não… Se não for, terei oportunidade de aprender uma nova lógica.

Compartilho esta lógica com vocês porque entendo que pode ser interessante, esclarecedora, e quem sabe, também útil para muitos de vocês aplicarem em suas vidas.

E para finalizar, é bem provável que um ou outro de vocês que leram esse texto estejam fazendo um julgamento meu após a leitura, e possivelmente até um julgamento negativo. 

O que eu penso disso ?… Bom, seja lá qual for o julgamento que qualquer pessoa faça de mim, ele é apenas uma possibilidade que esta pessoa escolheu para si mesma… Se for negativo, é uma possibilidade que pode gerar uma emoção destrutiva e até um prejuízo na saúde da própria pessoa. Ou seja, o julgamento negativo gera consequências indesejadas primeiramente para quem o emite, por isso é uma possibilidade que não faz muito sentido…

O que eu posso dizer pra essa pessoa ?… Posso dizer que, na realidade, existem infinitas outras possibilidades para se escolher, e que portanto não é preciso que ela esteja presa somente a esta possibilidade que pode lhe causar uma consequência danosa. Mas entendo que a escolha é dela, e portanto respeito o caminho que ela queira seguir… Só que, diferentemente, a minha escolha é nunca levar este tipo de possibilidade em consideração, ou seja, nunca deixar que o julgamento dos outros me afete… Porque a única coisa que faz sentido para mim é a escolha de uma possibilidade que me seja útil, ou seja, que me deixe emocionalmente em paz e livre de emoções destrutivas. Pois assim, sinto que estarei muito mais apto a promover a saúde do meu organismo, a saúde das minhas relações, a ser mais empático e a ajudar mais pessoas. Esta é uma escolha que me fortalece, que me gera resultados concretos, e que só depende de mim. E esta é possibilidade que quero deixar aqui para sua reflexão.