Astolfo estava na pior. Desempregado, endividado e abandonado pela esposa que levara consigo os três filhos, começava a juntar as coisas esperando o momento de ser despejado, pois já não conseguia pagar o aluguel da quitinete com sua renda, obtida pela venda de meias, cuecas e calcinhas na feira e nas caçadas.

O semblante era de desânimo, apesar de se julgar um homem de muita fé por frequentar a igreja todos os domingos e ter por hábito pedir a Deus que lhe ajudasse a melhorar de vida todos os dias em suas orações.

Um dia, após a feira, cansado e preocupado com o pouco dinheiro que juntara, sentou-se no banco da praça e, quase chorando, implorou a Deus que lhe apontasse uma saída ou que lhe mostrasse um caminho.

Alguns minutos se passaram enquanto, de olhos fechados, suplicava. Foi então que, ao abrir os olhos, deparou-se com uma pessoa sentada ao seu lado. Assustado, Astolfo observa a figura, um garoto de uns 17 anos, todo tatuado e com brincos nas orelhas, vestido com bermudão, camiseta regata e chinelos.

– Estou aqui! – disse o garoto. olhando nos olhos de Astolfo, que rapidamente afasta o seu corpo para a ponta do banco e se coloca numa postura defensiva.

– O que é, moleque? Vaza daqui, não tá vendo que o banco tá ocupado? O que você quer comigo?

– Eu é que te pergunto. Você me chama quase chorando, e depois fica bravo comigo? Fala logo o que você quer porque eu não tenho muito tempo pra ficar aqui contigo, rapá! – emendou o garoto.

– Como assim? Eu não te chamei, você tá louco? Eu estava aqui orando, chamando por Deus, e você se senta do meu lado. Se for pra me roubar já aviso que não tenho nada.

Nisso o garoto vira o rosto para trás, e num movimento rápido, olha de novo para Astolfo, que imediatamente vê outra pessoa na sua frente. O garoto se transforma em uma jovem muito bela e atraente.

– JESUS, O QUE É ISSO? – grita Astolfo, dando um pulo do banco.

– Não gostou de mim assim também? Que tal assim?  – diz a moça, que agora era um padre, depois uma criança, depois um homem negro.

– Quem é você? –  perguntou o espantado Astolfo.

– Eu sei que você esperava um velhinho de barba usando um vestidão branco, calçando sandálias franciscanas e com um cajado na mão. Fala a verdade, é assim que você me imagina, não é? Pois saiba que eu nunca assumi essa aparência, acho barba uma coisa que incomoda e dá trabalho pra cuidar, não uso vestido e não vou ocupar minha mão segurando um pedaço de pau. Coisa mais brega!

-Peraí? Você está me dizendo que é Deus, o todo poderoso, o pai de Cristo, o milagroso, misericordioso, onipresente e onipotente?

-Me poupe desses adjetivos. – Responde agora uma jovem coberta com burca preta.   

– Você me chamou e eu estou aqui, em carne e osso. Diga logo o que quer porque eu estou só de passagem. – emendou um homem de terno e gravata.

Percebendo que podia mesmo estar diante de Deus, Astolfo se ajoelha e começa a beijar os pés da pessoa, que continua se transformando. Quando se deu conta, beijava os pés feridos e fedidos de um senhor maltrapilho. Rapidamente se levantou limpando a boca e cuspindo de lado.

– Porque parou? – perguntou o velho às gargalhadas.

– Senhor, se for mesmo o Senhor, peço-lhe que, por favor, mantenha uma aparência única para que eu possa lhe reverenciar.

– Cara, como vocês pedem! Só pedindo coisas o tempo todo! – Diz o senhor se transformando em um porco. Após a reação assustada de Astolfo, o Deus então retorna à figura do garoto tatuado do início, se abrindo de rir. Astolfo se ajoelha aos prantos, e o garoto o puxa pra cima dizendo:

– Levanta, cara! Estou só curtindo com você! É pra rir não pra chorar.  Deixa de ser mal humorado!

– Eu sabia! Um dia minha fé seria recompensada. Sabia que minhas preces seriam atendidas. Sempre acreditei em Vossa misericórdia, que um dia viria me salvar de todos os infortúnios. Graças a Deus! Quero dizer, graças ao Senhor!

 O jovem, com expressão meio de deboche meio de pena, responde a Astolfo:

– Primeiro pára de me chamar de senhor porque eu sou muito mais jovem que você! Segundo, você está se achando demais. Seu chamado, seus pedidos e suas orações não são melhores nem mais potentes do que as preces dos outros bilhões de humanos que me chamam toda hora.

-É mérito meu! o Senhor está me recompensando pela minha dedicação à igreja e meu fervor nas orações. Muito obrigado, meu pai!

Nisso, Deus se transforma no Fausto Silva, e dá um gritão:

– EROOOOOUUU!

Astolfo ameaça achar graça, mas volta à expressão de espanto. E o garoto volta e continua:

– Não é nada disso, cara! Pensa comigo: tem 7 bilhões de seres humanos na Terra, que é um planetinha mixuruca de uma galáxia minúscula dentre milhões de galáxias. Daí eu te pergunto se acha mesmo que você, um desses 7 bilhões de poeirinhas do universo, teria o privilégio de ser atendido diretamente pelo criador de tudo isso só porque quer? Acha que eu fico aí respondendo todo mundo, abrindo as portas da esperança pra quem grita mais alto? Cara, você precisa entender direito o que é fé. É só isso que eu falo.

– Mas porque você está aqui na minha frente então?

-Olha só, de vez em quando eu dou umas incertas em alguns planetas, sabe? Faço isso bem de vez em quando mesmo, só pra supervisionar a minha criação e pegar algum feedback. Aqui na Terra eu acho que a última vez que vim deve ter aí… uns 2 mil anos. É, até deixei um cara mais consciente aqui pra ver se orientava vocês a cuidar melhor do planeta e serem mais felizes, mas não adiantou. Crucificaram o cara e até hoje tem gente brigando por causa dele. Mas serviu pra entender melhor como vocês estavam funcionando e fabricar melhores versões depois. Não faço mais isso, minhas visitas agora são relâmpago, em todos os planetas, e muito esporádicas também. Cansei, sabe? A inteligência que eu dei pra vocês parece que não serve pra nada. E pensando bem, se eu fiz o universo pra funcionar sozinho, por que vou ficar interferindo? Eu quero é curtir!

Interessado no discurso, Astolfo fica imóvel prestando atenção, e o jovem Deus prossegue:

 – Meu encontro com você foi totalmente aleatório. Caí aqui e vi que estava me chamando, só isso. O que você chama de fé, ir na igreja, ficar pedindo tudo e cultivando sofrência, eu chamo de perda de tempo. Isso só está servindo pra alimentar crenças, arrogância, discriminação, carência e sentimento de culpa. Tem tanta fé que ainda está duvidando que estou aqui, julgando minha aparência e querendo que eu me transforme no velho de barba.

Aos poucos começa a aparecer mesmo a figura de um senhor de barba branca, mas rapidamente volta-se pra imagem do jovem tatuado.

– A há!! Te peguei, hahahaha… Não vai me ver com a cara desse velho tão cedo.

– Senhor, pelo amor do Senhor, me ajude a sair da situação em que me encontro!

– Por quê?

– Porque o Senhor sabe que eu sou bom. Trabalho, faço caridade, vou na missa. Eu nunca o abandonei, meu pai!

– Sério? Como se chama?

– Peraí? Como você, que se diz Deus, não sabe meu nome?

-Véi, quem deu seu nome foi sua mãe e seu pai aqui da Terra. Já te falei que tem 7 bilhões de sujeitos só nesse planetinha aqui. Olha só, porque você acha que eu dei livre arbítrio, inteligência e emoções pra vocês?

– Pra sermos sua imagem e semelhança?

Faustão aparece de novo, faz um suspense, e dessa vez grita:

– ACERTOOOOUUU! Quero dizer… mais ou menos.

Astolfo dessa vez não aguenta e dá uma risada, e o garoto de bermuda continua.

– Se fosse pra ficar pajeando vocês, não faria um ser independente e autônomo. Vocês tem a mesma capacidade de criação que eu, e são livres pra usá-las. Está vendo aquela árvore do outro lado da rua ali?

– Sim, aquele ipê? Suas flores amarelas são lindas.

– Ele está crescendo e ameaçando a fiação elétrica. Já cortaram alguns galhos, e vão precisar cortar outros, mas ele insiste em brotar e continua dando flores.

-Sim, mas…

– Ele está com um grande problema, mas nunca me chamou. Por mais que tentem o atrapalhar, ele está sempre se virando sozinho, dando soluções e manifestando o melhor de si a todo instante. E fará isso enquanto estiver vivo. É uma árvore, não se move, não fala, não tem braços nem cérebro, mas sabe que tem uma missão e vive por ela, contanto só com a colaboração das outras espécies, e sem pedir nada. É tão independente e autônoma quanto você, mas com menos recursos.

-Mas e quando o livre arbítrio, a inteligência e as emoções não forem suficientes para resolver nossos problemas? Eu tenho um primo que é altista, não tem consciência nenhuma do que faz.

Vocês tem capacidade de reprodução como todas as espécies. Somando aos atributos únicos que já citei, têm tudo o que precisam pra viverem felizes.

– Capacidade de reprodução? O que isso tem a ver com felicidade?

-É com ela que vocês se multiplicam, e só em grupos vocês podem sobreviver. Com o livre arbítrio você faz escolhas e evolui como indivíduo, e as emoções permitem que se unam e cuidem uns dos outros, e assim evoluam como indivíduos e como espécie. Humanos, assim como qualquer outra espécie criada por mim, precisam viver em harmonia com os indivíduos da sua espécie, e com as outras espécies. Como vocês são mais frágeis fisicamente, precisam muito uns dos outros, por isso tem emoções. E o resultado da interação entre os indivíduos, com seu modo colaborativo de evoluir fizeram com que desenvolvessem a inteligência como forma de proteção e expansão da espécie humana. Você acha que seu filho sobreviveria no mundo sem os cuidados da mãe? E como a mãe iria gerar filhos sem a ajuda do pai? Eu inventei os hormônios e o sexo, e vocês inventaram casamento, casa, carrinho de bebê, etc… e assim a espécie evoluiu.

– Quer dizer que…

– Que vocês, assim como os ipês, os macacos, os peixes, os pernilongos e os brazztacachimons,  foram criados com todas as condições para viver como indivíduos e como espécies no planeta em que habitam. Porque eu faria um ser tão inútil que precisasse de mim toda hora pra resolver seus problemas?

– Brazz… o que?

– Brazztacachimons… eu disse isso? Ah, essa espécie é de outro planeta… foi mal, é coisa demais.

-Complexo isso…

-Complexo? Complexo é você me dizer que nunca me abandonou? Fala sério?

Astolfo, que estava cabisbaixo e pensativo, nesse momento olha para Deus, que se transforma em uma criança que logo reconhece. Era o filho concebido fora do matrimônio e que não via há décadas. Depois vê a esposa chorando de solidão, e em seguida o Divino se transforma em uma ninhada de filhotes de cachorro dentro de um saco, e Astolfo se lembra do dia em que os largou em uma estrada deserta. Os filhos oficiais também aparecem, revoltados pela ausência do pai. Chocado, Astolfo tenta argumentar:

-Minha esposa nunca quis me acompanhar na igreja. Aos meus filhos, eu sempre me preocupei em lhes dar condições de estudo, por isso trabalhei muito a vida toda.

– Cara, eu te obriguei a fazer alguma coisa?

– Hmmm… não.

– Porque você quer obrigar e impor a outras pessoas então. Eu já disse, fiz você para ser livre nas suas escolhas e assim ajudar os outros a serem livres, pra dessa forma também ser ajudado. Não pra ficar impondo, controlando, julgando, classificando e discriminando outros indivíduos iguais a você, e depois se fazer de vítima e ficar pedindo ajuda do além.

– Mas porque você não apareceu antes então? Porque nunca me mostrou o caminho certo pra ser feliz?

– Eu apareço pra você desde o dia em que nasceu, em todos os segundos da sua existência. Pra qualquer lado que olhar, ou pra cima ou pra baixo, me verá. Todos os seres viventes e não viventes, toda a energia do Universo me representa.

– Mas tem pessoas más. Como podem representá-lo?

– Bem e mal é criação da inteligência de vocês. Ou melhor, do uso errado dela! Eu criei seres viventes e não viventes dentro de um sistema, com espécies e indivíduos que evoluem dentro de um mesmo planeta. Essa evolução depende de como interagem, de como usam suas habilidades para conviver e coexistir no planeta. Os seres humanos desperdiçam o que tem de melhor, que é o poder de colaboração entre indivíduos, a inteligência e os sentimentos, coisas que só vocês tem nesse planeta. Resumindo, você nasceu pra ser feliz como qualquer outra criatura existente. E eu já fiz tudo que precisava pra garantir essa possibilidade. O resto é com você!

– Mas como? Não consigo ser feliz nesse estado em que me encontro?

O garoto vira o boné pra trás, pega no ombro de Astolfo e diz:

– Véi, eu sei que alguém já te passou pra trás, sei que não conseguiu várias coisas que queria e também sei que sofreu com algumas perdas de pessoas e coisas. Não precisa ser nenhum Deus pra saber disso, porque isso acontece com você e com todos os habitantes do Universo, não só seres humanos. Assim como sei que ficou muito feliz no nascimento dos seus filhos, o quanto gosta de fazer amor com sua esposa e de pescar com seus amigos. Sua vida é toda sua assim como a vida de todas as outras pessoas é delas, mas existem energias se cruzando o tempo todo, toda ação de qualquer indivíduo impacta no todo, e o sistema é assim mesmo. Então, não adianta querer buscar facilidade e fugir de dificuldade, Deus não vai te blindar de nada, toda situação que vivencia serve para você aprender e se melhorar como indivíduo, pra assim ajudar outros indivíduos, e então preservar a espécie e o manter o equilíbrio do planeta. É feliz quem quer, e eu estou cuidando de outras coisas muito maiores! Qualquer dúvida, olha para o ipê!

– Mas o que fazer quando não temos mais saída?

– Saída? Do que quer sair? Da vida que você mesmo escolheu viver? Você pode sair na hora que quiser, a vida é tua, véi! Agora se quiser continuar com ela, te digo que é uma boa escolha! Tamo junto! Pára de reclamar e começa a usar a cachola pra fazer coisas legais e colaborar com os outros!

-Não dá, não tenho dinheiro!

– Ai meu saco…

Ficam os dois ali, alguns minutos em silêncio, quando de repente o jovem Deus move a mão direita para as costas e saca um revólver, apontando para Astolfo e dizendo:

– Perdeu, Tio! Passa tudo logo senão morre. Carteira e celular!

Astolfo toma um susto no início, mas aos poucos vai retomando a respiração. Fica em silêncio por alguns segundos pra depois dizer calmamente.

– Rapaz, não precisa fazer isso. Pode levar o que quiser de mim, ou pode atirar se achar que deve. Você tem a vida toda pra fazer escolhas melhores pra sua vida, sei que pode estar se sentindo sem rumo, mas Deus está junto de você, pense bem.

Devagar ele põe suas mãos sobre a mão do jovem que empunha a arma e diz:

– Posso lhe dar muito mais do que o dinheiro e o celular, se acreditar em mim.

O jovem fica assustado e pergunta: Como assim? O que pode me dar? Você é Deus, por acaso?

– Sim, posso lhe dar a sua vida de volta, olhe bem pra mim e verá que já tem tudo o que é suficiente para ser feliz.

O garoto olha para Astolfo, e inesperadamente vê ele se transformando na sua mãe, depois no seu pai e nos seus irmãos. Tomado por uma emoção fortíssima, o garoto abraça aquelas figuras tão próximas, e fica aos prantos. No abraço, Astolfo sente fortemente a presença dos filhos, da esposa e depois vê a pele morena e enrugada do seu pai e sente a maciez do colo da sua mãe.

Ao se separarem, as figuras se voltam para Astolfo e o garoto tatuado, que se levanta devagar e vai saindo aos poucos.

– Deixa eu ir agora porque tem milhões de galáxias pra eu passear e você já me tomou muito tempo.

Num piscar de olhos, Deus some e Astolfo fica meio tonto, sem saber se aquilo tinha sido algo real ou sonho. Dali há pouco senta-se no banco uma senhora maltrapilha, que o aborda:

– Eu estou aqui.

– Eu sei, venha comigo. Tenho muitas meias pra vender e se me ajudar posso dividir a renda com você.

– Eu agradeço, senhor, mas não posso deixar meus filhos que estão ali vendendo também, olha!

Astolfo dá um abraço nela e diz:

Claro, faça o que achar melhor, estarei por perto se precisar. E lembre-se que Deus está em você, assim como está naquele ipê ali! A senhora parece ficar sem entender, mas sorri e agradece, dizendo:

– Eu sei, está em todos nós, até nos brazztacachimons!

Astolfo se levanta atordoado e sai caminhando rápido até sua casa, e no caminho segue pensando várias coisas, até chegar à seguinte conclusão:

-Deus existe, não é nada do eu imaginava e é um tremendo fanfarrão!