“O mais rico não é aquele que mais tem, mas sim aquele que menos precisa.”

Diógenes de Sínope

Volta e meia ouvimos falar que para sermos prósperos é preciso abandonar o pensamento de escassez e adotar um pensamento de abundância. E ouvimos isso principalmente após iniciarmos alguma caminhada de auto-aprimoramento. Confesso que em meus 15 anos nessa caminhada, nunca tenho me deparado tanto com esta mensagem como nos últimos tempos.

Dentro da Filosofia Orgânica, abundância vs. escassez também é um dos principais paradigmas que buscamos desconstruir. Entretanto, sou obrigado a reconhecer que, apesar de uma grande quantidade de linhas de pensamento, filosofias e até religiões estarem disseminando a importância desse pensamento de abundância, paradoxalmente, a desconstrução deste paradigma parece estar se tornando um trabalho cada vez mais árduo.

É que o conceito de abundância que vem sendo disseminado, majoritariamente, não parece estar sendo produzido por mentes abundantes. Ao contrário, parece existir muito mais pensamentos de escassez difundindo abundância, do que pensamentos que sejam de fato abundantes.  

Abundância e riquezas materiais

O que ouvimos falar sobre abundância está quase sempre relacionado, direta ou indiretamente, a algum tipo de acesso contínuo a coisas que não estão sob nosso controle. Podemos citar como exemplo saúde e relacionamentos (coisas que, no pensamento comum, se temos, estamos em abundância, e se não temos, estamos em escassez), porém, o que mais salta aos olhos quando ouvimos falar de abundância está relacionado ao acesso a outra coisa que também não está sob nosso controle, que são as riquezas materiais, e ao meio necessário para obtê-las, que é o dinheiro. Nesse caso a mensagem é muito mais indireta, ou seja, de maneira geral, está direcionada a ações mais nobres como fazer o bem para as pessoas, cuidar do planeta e da espiritualidade. Porém nas entrelinhas, de alguma forma, alimenta-se uma certa expectativa de conseguir, como consequência dessas ações mais nobres, o acesso ao dinheiro e às riquezas materiais que ele proporciona.

Não é raro ouvirmos que abundância significa estarmos, através da espiritualidade, do cuidado com o planeta e com as pessoas, abrindo o “fluxo” da matéria e acessando assim a uma fonte inesgotável de riquezas que, por serem abundantes, existem para todos. E que portanto não há nada de errado em ganhar muito dinheiro e em ter acesso a muitas riquezas materiais que são “necessárias” ao nosso conforto e bem estar.

Esta é uma bonita mensagem, que seguramente deve atrair bastante atenção pois parece realmente tratar-se de uma mensagem de abundância. Porém, usando como referência os princípios da Filosofia Orgânica, vejo a necessidade de refletirmos um pouco mais sobre este conceito, para ver se realmente está conectado a uma realidade. Esta é uma reflexão importante porque quanto mais claro fica a diferença entre realidade e imaginação, maior a nossa consciência, e quanto maior a nossa consciência, menor o possível sofrimento fruto de uma ilusão.   

Primeiramente é muito importante deixarmos bem claro que, para nós do Movimento Orgânico, também não existe NADA ERRADO em ganhar dinheiro. E que provocamos esta reflexão porque  parece existir uma grande diferença entre o paradigma de abundância que procuramos desconstruir, e esta mensagem de abundância tão disseminada que soa como um prêmio por estarmos as fazendo coisas certas para o mundo.    

Então vamos à primeira pergunta que vem em mente: será que o conceito de abundância tem alguma coisa a ver com dinheiro, ou com acesso a qualquer tipo de riqueza material ?

Para responder esta pergunta, buscamos como referência um dos principais pilares da Filosofia Orgânica, que é a Natureza. A observação da Natureza é nossa maior fonte de aprendizado, pois,  como já repetimos algumas vezes, trata-se do maior case de sucesso da história da humanidade. Ela já enfrentou todos os tipos de intempéries que se pode imaginar (de grandes vulcões a meteoros que devastaram o planeta), e não só continuou, como continua sobrevivendo graciosamente já a alguns bilhões de anos. Portanto, se nós seres humanos conseguirmos aprender só um pouquinho com a Natureza, é certo de que também melhoraremos nossa chance de durarmos mais tempo como espécie. Pois uma coisa é certa, com ou sem os seres humanos, a Natureza vai continuar.

A abundância na Natureza

Por ser esse grande case de sucesso, nos parece bastante óbvio que a Natureza é abundante. Pois escassez leva à miséria, que leva à morte ou extinção. E ao contrário disso, não importa o tamanho da devastação que a Natureza sofra, ela simplesmente se ajusta e volta a estabelecer-se novamente com a mesma força. A abundância parece ser algo inerente à Natureza, que vem de dentro dela, e não de fora. E podemos de forma bem simples, constatar exemplos de abundância na Natureza, basta observarmos o comportamento dos outros seres vivos (à exceção do ser humano) que a habitam.

Todos esses seres vivos, sejam eles animais, vegetais ou microorganismos, seguem o mesmo padrão de abundância na Natureza. O padrão onde cada um extrai dela SOMENTE O NECESSÁRIO para sua sobrevivência. Nenhum outro ser vivo extrai absolutamente NADA além do necessário. Isso porque estes seres vivos também possuem a abundância dentro de si. Não precisam acumular nada e nem se garantir para o futuro. Não precisam de mais do que o necessário para a sobrevivência em seu próximo ciclo. Portanto não há preocupações com o futuro ou com a falta, pois existe a certeza de que a Natureza estará sempre provendo o que é necessário.

Vamos citar exemplos: quando um leão faminto ataca uma manada de gazelas ou de zebras, ele persegue e mata somente UMA presa. Aquela presa que, hoje, vai matar sua fome, a de seus filhotes e de seu bando (e talvez indiretamente também das hienas, dos abutres e das moscas varejeiras e bactérias que devolvem os nutrientes para o solo), enfim, esta presa que o leão matou vai alimentar não só o seu próprio ciclo (que talvez dure alguns dias até ele ter fome novamente) assim como todo um ciclo equilibrado de outras vida.

Seguramente nós nunca veremos um leão matar 3 ou 4 presas de uma só vez com o intuito de garantir a próxima refeição, ou o conforto de não ter que atacar outra manada e perseguir outra presa na semana que vem. Isso o leão não faz. Porque sua mente é abundante. Se ele assim fizesse, estaria retirando da Natureza mais do que o necessário para sua sobrevivência, o que causaria um desequilíbrio que seria prejudicial para o próprio leão. E ele, instintivamente, sabe disso.   

Da mesma forma as raízes de uma árvore de araucária retiram do solo somente aquelas quantidades de água e nutrientes necessários para a sua sobrevivência. A araucária não se aventura a retirar mais nutrientes do solo para, de repente, poder ter um crescimento maior do que as outras e se garantir no caso de uma seca. Se a árvore assim o fizesse, provavelmente prejudicaria as gramíneas que nascem ao seu redor, gramíneas que talvez estejam atraindo insetos e animais silvestres que encontram seus pinhões e espalham pela natureza garantindo sua perpetuação. Enfim, se a araucária extraísse e do solo mais nutrientes do que o necessário, deixaria de agir de forma abundante, e estaria causando um desequilíbrio que certamente prejudicaria a si própria e todo seu ciclo de vida. E instintivamente, ela também sabe disso.

Esses são dois pequenos exemplos de como funciona a abundância na Natureza. De como é maravilhoso ver que todos os seres vivos possuem a abundância dentro de si próprios, e precisam extrair da Natureza somente o necessário para sua sobrevivência, mantendo e perpetuando assim, o equilíbrio que garante a sobrevivência de todos.

Tudo indica então, que abundância está dentro de nós, e não fora, e que o significado de abundância é termos acesso somente ao necessário para nossa sobrevivência, nada além disso. Este conceito quebra o paradigma, e faz todo sentido. Abundância não se trata de termos acesso a tudo aquilo que alimenta nossas carências, necessidades ou expectativas supérfluas. Mas sim, de podermos ter somente o imprescindível, e de nunca extrairmos da natureza absolutamente NADA que venha a provocar uma destruição ou desequilíbrio na mesma.  

Viver somente com necessário

Ao compreendermos esta lógica, fica mais claro também que possuir ou ter acesso a muitos bens, almejar mais coisas que o dinheiro possa comprar, coisas além do necessário para sobrevivermos, ainda mais sendo coisas extraídas da Natureza de modo predatório. Isso tudo é muito mais fruto de uma mentalidade de escassez. Uma escassez que, longe dos nossos olhos, como consequência, acaba gerando justamente a miséria, a morte e a extinção.

Faço questão de reforçar mais uma vez que o problema não é ter dinheiro. O problema é ter desejos supérfluos que demandam dinheiro. Porque esses desejos nos fazem a perder noção do que é realmente imprescindível para nossa sobrevivência. E a maioria de nós perdeu totalmente essa noção !!.. Se alguém vive em um ambiente urbano e não é um Hippie, a chance é muito alta de que esta pessoa não possui a menor ideia do que é realmente necessário para sobreviver (e eu me incluo entre essas pessoas). Nós achamos que precisamos pagar aluguel, condomínio e seguro de saúde, achamos que precisamos comprar embalagens mais caras do que os próprios alimentos ou produtos que consumimos, achamos que precisamos andar de carro e viajar de avião, achamos que precisamos comer em restaurantes, ir a festas e eventos, achamos que precisamos pagar internet e ter um celular de última geração, achamos que precisamos acompanhar moda, e por aí vai… A realidade nua e crua é que: Nenhum de nós precisa de nada disso para sobreviver !!… E todos nós estamos causando algum tipo de destruição e desequilíbrio na Natureza por vivermos na dependência dessas coisas.

E tais desejos e necessidades supérfluas foi algo que nos ensinaram a ter, com a intenção de nos tornar seres carentes, que continua extraindo indiscriminadamente sem ter a menor noção do desequilíbrio e destruição que causamos… Tais desejos e necessidades supérfluas nos fazem continuar em um caminho prejudicial a nós mesmos… Tais desejos e necessidades supérfluas, nos mantém presos a uma expectativa de ganhar dinheiro para atendê-los. E mesmo que esse dinheiro venha como consequência de maravilhosas boas ações para o planeta ou para outras pessoas, não muda o fato de que continuarmos com uma mentalidade de escassez, por mais que estejamos falando de abundância.  

Afirmar que abundância seja acesso a um dinheiro que sustenta luxo, conforto, desejos e necessidades supérfluas, soa como uma grande ilusão criada por mentes que continuam vibrando na escassez. Porque como vimos nos exemplos da Natureza, abundância não tem nada a ver com a acesso aos bens e confortos que o dinheiro pode comprar, e nem com garantia de futuro. Até porque essas coisas não existem na Natureza. E se não existem, não há nenhum indício de que isso possa ser uma realidade. Nem mesmo para nós, seres humanos, isso é uma realidade. Se voltarmos no tempo e observarmos como vivemos durante mais de 200 mil anos, e como os ancestrais de nossa espécie viveram durante milhões de anos até chegarmos evolutivamente onde chegamos, vamos constatar que 99,99% de nosso tempo de vida foi vivido dentro de uma mentalidade de abundância, onde colaborávamos muito uns com os outros, e retirávamos da natureza somente o necessário para nossa sobrevivência. Essa maneira sábia (e abundante) de pensar só mudou após a revolução da agricultura, quando passamos a adotar a escassez como estilo de vida, e posteriormente acentuou-se muito com a revolução industrial, onde aumentamos exponencialmente nossa dependência desse estilo de vida escasso, e passamos a nutrir, cada vez mais, esses desejos, carências e necessidades supérfluas… Enfim, desde o surgimento da revolução industrial, do capitalismo e da mídia nós começamos a perder totalmente essa noção do que é de fato necessário para nossa sobrevivência.   

A observância desta perda de noção nos leva a compreender porque a maioria de tudo que é aparentemente difundido como abundância, de fato trata-se de uma escassez disfarçada. Ou talvez daquilo que título desse artigo sugere, uma “abundância escassa”.

Para desconstruirmos de vez esse paradigma, temos que compreender profundamente dentro de nós, que somente no momento em que não precisarmos mais de dinheiro nenhum, quando não precisarmos nem mesmo pensar em dinheiro, e quando tudo que fizermos realmente vier de nosso instinto mais puro, e não pautado por algum desejo emocional de compensação, troca ou atendimento de necessidades… Este será o momento em que nossa mente estará vibrando na abundância. Pois assim como na Natureza, a abundância virá de dentro de nós, e não de fora. Será o momento em que a única coisa que importará para nós é a manifestação de nossa essência colaborativa.

A minha própria consciência 

Alguns podem perguntar, “ah … mas e o alimento ? e a comida ?.. Para sobreviver temos que ter dinheiro pra isso !”..  Bom, se de fato manifestarmos nossa natureza colaborativa, nenhum ser humano vai deixar faltar comida para outro, saberemos compartilhar a ajudar (até porque hoje, cerca de 40% de todo alimento produzido é jogado fora, enquanto realmente falta alimento para algumas pessoas)… Porém, vamos supor que ainda demore muito para que as pessoas desconstruam esse paradigma do toma-lá-dá-cá… OK, nesse caso, se simplesmente passarmos a comprar somente o necessário para nossa sobrevivência, vamos descobrir que precisamos de muito pouco dinheiro, mas muito pouco dinheiro mesmo !!!…  Eu já fui um exemplo disso no passado. Já tive a experiência de viver 7 anos da minha vida, tanto no Brasil como nos EUA, com metade de um salário mínimo. Uma renda que eu tornava suficiente para pagar aluguel, transporte, comida, material de estudo e lazer. Sem nunca me sentir pobre ou carente… Posso dizer que meu próprio mindset naquela época, talvez fosse mais abundante do que meu mindset de hoje… Pois definitivamente eu causava muito menos desequilíbrio na Natureza com aquele nível de consumo. E olhando pelo lado prático e lógico, vivendo com aquele pouco que eu vivia, talvez eu realmente estivesse muito mais conectado com a abundância natural do que nos dias de hoje.

Ter consciência disso faz com que minha caminhada para o mindset de cada vez mais abundância em minha vida seja uma caminhada de minimalismo. Uma caminhada onde eu consiga, dia após dia, precisar de cada vez menos para viver: cada vez menos bens, cada vez menos gastos, cada vez menos dinheiro. Assim consigo ficar cada vez mais despreocupado com o dinheiro que o mundo me fornece, e então consigo dedicar-me integralmente a fazer coisas que tenham sentido pra mim, com a intenção única de manifestar cada vez mais, minha essência autônoma e colaborativa. Talvez algum dia consiga dizer que esteja vivendo totalmente neste mindset de abundância, mas por enquanto consigo dizer que estou feliz por estar progredindo nesta caminhada.

Também é importante ter a consciência de que eu não conquisto nada externo (só posso conquistar o que está dentro de mim) portanto meu desejo e minha vontade são indiferentes. É o Universo (ou a Natureza) que sempre me fornece o que é necessário em cada momento de minha vida.    

Se o Universo me dá pouco dinheiro, é sinal que preciso viver abundantemente com o que ele me dá. E se por um acaso, o Universo resolve me dar muito dinheiro, certamente vou receber com gratidão e vou gostar muito (pois como disse, não há nada errado em ganhar dinheiro)… Porém, independentemente de quanto o Universo me der, para que eu continue vivendo abundantemente, minha caminhada minimalista e colaborativa não pode mudar. A única coisa que pode mudar é minha responsabilidade de ter que usar esse dinheiro para, quem sabe, contribuir mais, de alguma forma, com um mundo também mais colaborativo e minimalista, ou seja, com mentalidades mais abundantes.

Manter um pensamento abundante significa não precisar e nem desejar esse dinheiro, mas simplesmente compreender que, se um dia eu estiver pronto e no momento certo para recebê-lo, é possível que Universo venha confiá-lo a mim… Nesse caso poderei ser grato e assumir a responsabilidade que então me couber… Porém hoje, mantenho a consciência tranquila de que é totalmente possível que isso nunca aconteça, pois ganhar dinheiro é algo que não depende de mim… E se não depende de mim, não preciso me preocupar nem um pouco com isso. Basta eu continuar feliz por estar fazendo minha parte, buscando a vida de mais abundância através desta caminhada minimalista e colaborativa.

O verdadeiro sentido de viver com abundância reside naquilo que nos trouxe o filósofo Diógenes de Sínope a uns 2.400 anos atrás: “O mais rico não é aquele que mais tem, mas sim aquele que menos precisa.” ou em outras palavras: uma mente abundante não é aquela que mais tem acesso às coisas, mas sim, aquela que pode viver com menos coisas.