Empresa: termo que vem do latin in-prehendere que significa algo como “prender ou capturar dentro de si”. Olhando a origem da palavra, empresa é onde se prende ou captura pessoas dentro dela, ou seja, significa o mesmo que “prisão”.

Com a pandemia tivemos a oportunidade observar alguns empreendedores aproveitando o momento como justificativa para tomar decisões que sempre queriam tomar mas que, por algum motivo, pensavam que não podiam. Encerrar contratos de trabalho de muitos anos, acabar com uma sociedade, fechar unidades de negócio ou até mesmo acabar com a empresa foram decisões que tive o privilégio de estimular ou participar. Decisões que traziam consigo objetivos comuns para esses empreendedores: tornarem-se mais livres, mais leves, menos preso a compromissos e obrigações que, além de constituírem um peso que gerava ansiedades, angústias, frustrações e conflitos (sobretudo nestes períodos de instabilidade que constituem o novo normal), não se conectavam mais com sua essência, com a pessoa que de fato ele gostaria de ser, ou com aquelas coisas que de fato ele tinha vontade de fazer. E ter que usar a pandemia como pretexto para tomar tais decisões que vinham sendo postergadas, me fez refletir sobre o quanto um empresário vive preso, ou sobre o quanto empreender representa de fato, se prender.   

Nos últimos 18 anos, desde que deixei de ser empregado, houve apenas um período, cerca de 3 anos depois, onde tive um sócio, contratei um funcionário CLT e organizei uma empresa – mas o próprio mercado me ajudou a corrigir esse erro após mais alguns anos, quando desfiz a sociedade e converti esse meu funcionário em parceiro autônomo, ganhando no processo um grande aprendizado. Fora esse pequeno período onde descobri que obrigações como sócio e patrão não eram pra mim, sempre atuei de forma autônoma. Não conseguia me prender nem mesmo à associações empresariais ou certificações profissionais pois logo percebia que estas coisas tiravam minha liberdade. E para mim liberdade é algo que nunca teve preço. Aliás, me arrisco a dizer que não só para mim, mas para qualquer ser humano, apesar de muitos não terem consciência disso. Um pouco de estudos históricos e antropológicos e vamos constatar que liberdade não tem preço para qualquer pessoa, pois a autonomia é algo inerente à natureza humana.

Todo e qualquer ser humano, enquanto não desenvolve a capacidade de absorver crenças, ou seja, até ali pelos seus 5 ou 6 anos de idade, consegue viver a liberdade de forma bastante plena. Crianças não se aprisionam, não se oprimem, não se limitam, não se impõe. E por isso vivem muito mais felizes do que nós. Por isso elas nos encantam. Como diriam os filósofos Rousseau e Thoreau, nascemos livres para depois nos acorrentarmos em nossas próprias crenças.

O grande problema desse aprisionamento são suas consequências: as ansiedades, angústias, frustrações, sofrimentos mentais e emoções destrutivas que desenvolvemos e nutrimos por vivermos nestas prisões que nós mesmos criamos. Sofrimentos mentais e emoções destrutivas que as crianças, em seu estado natural, também não sabem o que é (a não ser que estejam absorvendo isso de adultos à sua volta).   

Isso tudo nos leva a pensar sobre as inúmeras formas de aprisionamento que nos foram impostos socialmente durante toda a vida, desde a bronca dos pais até as zoações de colegas, desde o desempenho escolar até os rótulos de responsável e trabalhador, desde a roupa da moda até a casa própria, desde a necessidade de faturar até a necessidade de atender exigências ou mimos que nós mesmos pusemos nos outros, sejam eles nossos filhos ou nossos clientes, desde ser alguém quando crescer até ter um propósito ou fazer alguma diferença no mundo. Se formos listar encontramos uma infinidade de crenças que, muito ou pouco, nos aprisionam.  

A carência de importância

Se formos eleger uma dessas crenças mais significativas, eu diria que é a nossa carência de importância. Estamos presos a uma crença de que precisamos nos tornar importantes, como se o fato de termos recebido o milagre da vida não fosse suficiente. Pois a sociedade e o sistema nos fazem acreditar que não é suficiente, que a vida por si só não vale muita coisa. Que nossa importância precisa ser fruto de um reconhecimento público proporcional à nossas conquistas quantitativas no que tange a 3 coisas:  posses, fama e poder. Desde que inventou esses 3 indicadores, a sociedade passou a definir nossa importância com base neles. E tais indicadores são frutos de uma lógica de escassez, ou seja, para que exista valor em qualquer um deles é preciso haver escassez, acesso restrito, disponibilidade somente para poucos. O valor de posses, fama e poder é construído sobre uma desigualdade onde gradualmente, quanto menos se tem acesso, mais se vale, e quanto mais se tem acesso, menos se vale. Isso é bastante óbvio pois se todos tivessem o mesmo nível de acesso a eles (ou seja, se houvesse igualdade), tais indicadores não teriam valor algum e seriam irrelevantes.

Então nós como sociedade, por acreditarmos que o valor reside na escassez e é medida por esses 3 indicadores, acabamos criando uma espécie de pirâmide virtual onde estimulamos continuamente uma competição entre as pessoas para conseguir escalá-la. Uma pirâmide possui um formato cônico, afunilado, portanto, quanto mais alto em uma pirâmide, menor o espaço disponível, portanto menos pessoas cabem naquele espaço, o que gera sensação de de valor, de exclusividade. Assim, qualquer pessoa que consegue aumentar os indicadores de posse, fama e poder, sentirá que subiu um degrau na pirâmide, e que portanto, aumentou o seu próprio valor, tornou-se mais importantes e reconhecida. E isso tudo é um sentimento criado pela nossa imaginação, porque na realidade não existe pirâmide alguma. O fato é que estamos todos no chão.

Essa é uma reflexão muito rica na qual podemos nos aprofundar um monte!.. Mas eu gostaria de explorar o outro lado desta competição virtual, menos aparente, que é o aprisionamento que geramos para nós mesmos por acreditarmos nessa pirâmide. Paradoxalmente, a própria pirâmide é uma imagem perfeita para representar essa prisão. Em uma pirâmide, justamente por seu formato cônico, quanto mais se sobe, menos espaço se tem, ou seja, mais aprisionada ou restrita a pessoa torna-se. Se alguém está no chão teoricamente tem liberdade para movimentar-se para qualquer lado que quiser e para seguir qualquer rumo que quiser, sem limites, e sem quedas. Porém, quanto mais alto na pirâmide, menos espaço para movimentar-se a pessoa tem, e maior a queda caso ela ultrapasse os limites que lhe são impostos pela pirâmide. Isso significa que quanto mais posses, fama e poder uma pessoa possui, ou seja, quanto mais ela escalou o pico da importância social, mais escassas são suas possibilidades, mais aprisionada ela tornou-se.

Esta reflexão que parece meio chocante é nada mais do que um exercício racional de lógica. Posses, fama e poder aprisionam um ser humano. Tiram sua liberdade. Se tenho posses, preciso cuidar, manter e proteger essas posses. Quanto mais posses tenho, mais o meu tempo será tomado pela necessidade de cuidado, manutenção e proteção destas minhas posses, e maior quantidade de recursos e esforços deverão ser despendidos para tal. Alguém desprovido de posses não se preocupa muito e consegue sentar-se uma terça-feira à tarde à beira do rio, curtir a natureza e pescar uns peixinhos (na adolescência fazíamos isso). Porém, ao adquirir posses, por mais que eu queira fazer esta mesma coisa, provavelmente não conseguirei porque preciso estar gerando recursos para pagar o preço de cuidar, manter e proteger minhas posses. Os seja, as posses tiram minha liberdade e tranquilidade. As posses me aprisionam. E o mesmo vale para fama e poder. Quanto mais eu tenho, mais olhos e expectativas estão sendo depositados sobre mim, o que exige que eu seja muito mais quem os outros esperam que eu seja, do que quem efetivamente eu gostaria de ser. Fama e poder exigem que eu tome decisões e aja muito mais de acordo com o que o sistema espera de mim, do que de acordo com a minha própria vontade, não me permitindo, da mesma forma, sentar à beira do rio e pescar em uma terça-feira à tarde, seja porque não estarei dando um bom exemplo para aqueles que esperam, ou exigem, que eu esteja me esforçando para merecer o poder que conquistei, ou porque tenho que estar preocupado por alguém estar tirando minha foto e criando rótulos negativos a meu respeito.

Enfim, de toda maneira que analisamos, uma pessoa que escalou a pirâmide das posses, fama e poder, é uma pessoa com menos liberdade, e portanto menos autonomia e tranquilidade, do que uma pessoa que tenha ficado mais abaixo dessa pirâmide. É uma pessoa mais presa. E esta prisão reflete em emoções destrutivas. Seja uma ansiedade por ter que dar conta de cuidar, manter e proteger suas posses, uma angústia por ter que preservar uma imagem que não condiz com sua essência ou uma frustração íntima por não poder fazer aquilo que de fato gostaria. Isso sem contar os inúmeros atritos e conflitos que acabam surgindo com outras pessoas também carentes de importância e também com um mesmo mindset de escassez, pessoas que por sentirem-se menos valorizadas, acabam cobiçando tanto suas posses, como sua fama e seu poder, e agindo de alguma forma, contra você. Ou seja, o reconhecimento social carrega consigo, além de um enorme peso emocional, um grande potencial para cobiça e conflitos entre seres humanos.

Empreender e ter empresa

Ao entender melhor esta questão da importância, podemos falar um pouco mais de empreendedores e de empresas. Primeiro eu gostaria de separar um pouco essas duas coisas. Apesar da mesma origem etimológica, empreender não necessariamente tem a ver com empresa. Estamos usando o termo empreender nesse texto como sinônimo de criar, de desenvolver soluções e alternativas. Assim posso dizer que desde que comecei a trabalhar de forma autônoma eu vivo empreendendo. Minha vida tem sido, e é, uma busca de soluções contínuas que me permitem prover uma vida cada vez mais saudável para as 5 pessoas que dependem de mim. Tenho que buscar soluções criativas, colaborativas e inovadoras a todo momento, descobrir novas formas de interação social, novos serviços e novas maneiras de adequar minha vida à renda que o mundo me dá, sem deixar-me aprisionar a nada (que é o meu pré-requisito). A minha própria vida é, portanto, um empreendimento. E empresa para mim é nada além de uma burocracia que tenho que cumprir para estar realizando algumas dessas interações sociais dentro da legalidade que o sistema me exige. Mas como ninguém sabe que minha empresa existe ou tem nome, socialmente ela não vale nada, não me gera importância nenhuma e consequentemente não me prende muito (burocracia e custos não deixa de ser uma correntinha amarrada no pé…). Mas é fácil livrar-me dessa correntinha se eu julgar necessário.   

O caminho do emprego eu já experimentei e não me serviu. Simplesmente porque empregado é alguém que está oficialmente vendendo sua autonomia em troca de um salário fixo. Se a pessoa leva isso numa boa, está tudo certo, mas alguém como eu, que preza tanto por esta autonomia, não é capaz de vendê-la. Não é aceitável para mim ter que submeter-me a uma realidade onde se tem uma carga horária para cumprir e ordens de superiores para obedecer. E curiosamente não só para mim, mas tal realidade é inaceitável para muitos empreendedores. Muitos deles de fato fugiram de empregos porque queriam “tornar-se donos de seus próprios narizes”, e acreditavam que empreender seria o caminho para conquistar esta liberdade.  

Mas existe uma diferença: enquanto o ato de empreender para alguém como eu está relacionado à criação de alternativas que me garantam uma vida autônoma, para a imensa maioria das pessoas que deseja escalar a pirâmide da importância e do reconhecimento, o ato de empreender significa tornar-se proprietário de uma empresa. Uma empresa que acaba tornando-se algo muito maior do que um simples CNPJ, e o que é pior, maior do que o próprio empreendimento. Ela converte-se em um grande símbolo de posse, poder e fama, que pode ser divulgado para a sociedade. Uma empresa que possui nome, marca e espaço físico, instantaneamente permite um upgrade nos indicadores sociais de posse e fama. E quando essa empresa contrata pessoas e começa a pagar salários, então o empreendedor consegue dar um grande salto no indicador de poder. Com isso consegue escalar muitos degraus na pirâmide da importância e do reconhecimento social. Então este empreendedor logo trata de formalizar essa importância e reconhecimento associando-se a entidades que reúnem esse grupo de pessoas que estão em um nível de importância semelhante por também possuírem empresas, terem empregados e pagarem salários. Um grupo mais seleto de pessoas chamado de empresários.

Estar neste novo grupo representa uma grande conquista decorrente de seu esforço, um grande reconhecimento público a seu ato de empreender. Porém, o que nesse caso o empreendedor só vai perceber bem mais tarde, é que ao constituir este tipo de empresa, ele praticamente aniquilou sua autonomia. Conseguiu ter muito menos liberdade do que seus próprios empregados, pois agora, além de continuar tendo carga horária para cumprir (e uma carga horária muito maior do que aquela que seus empregados cumprem), ele também possui muito mais ordens para obedecer (ordens de credores, do governo, de clientes, de sócios, e dos próprios empregados, todos exigindo que ele cumpra algum tipo de obrigação). Ou seja, o empreendedor literalmente, se jogou em uma masmorra.         

Nome, marca, espaço físico e geração de empregos, tudo isso que soa para a sociedade como símbolo de importância, vem com seus custos e obrigações embutidas. As primeiras são aquelas devidas a investidores e credores, que geralmente financiam a fama inicial, mas depois cobram por ela… Então entra em campo o principal sócio de qualquer empresa, que é o governo. O governo ama CNPJs e é o primeiro a se aproveitar deste novo degrau de importância despejando um monte de impostos e novas obrigações para cumprir, que somam-se a aluguel, dívidas e salários. A partir daí, o jeito é correr atrás das vendas porque senão as contas te engolem !!… E é bom que siga o roteiro: seja aquele que todos precisam que você seja: bom fornecedor, bom gestor, bom líder, bom sócio e um empreendedor de sucesso (e ainda boa mãe e boa esposa se for mulher). E faça o que todos esperam que um bom fornecedor, bom gestor, bom líder, bom sócio e empreendedor de sucesso faça, ou seja, esforce-se, seja responsável, atenda bem, garanta os salários, tenha um propósito nobre, contribua com a comunidade e CRESÇA, porque é imprescindível que você continue alimentando a expectativa de todos, e com isso aumentando ainda mais suas posses, fama e poderes para continuar escalando a pirâmide. Até porque empresários também competem entre si por importância. Aquele que não tiver cada vez mais nome, marca, clientes, empregados e faturamento, não será tão importante como o concorrente, e isso representa um grande risco neste meio.  

O valor de estar preso

Enfim, depois que você começa essa brincadeira, seu tempo, foco, preocupação e muitas de suas noites de sono serão tomadas por essa prisão. Dificilmente você conseguirá, algum dia, parar e refletir sobre sua própria vida sem que hajam decisões para tomar e coisas para resolver. E mais difícil ainda será você, algum dia, sair dessa armadilha e reconquistar sua autonomia… Pois socialmente só é aceitável desvincular-se de sua empresa se você estiver escalando mais alguns degraus na pirâmide seja através de uma venda com grandes retornos, ou da compra de uma outra empresa melhor – que possa te prender um pouco mais… Mas como isso é algo raríssimo de acontecer, para a imensa maioria dos empreendedores, desvincular-se de sua empresa, ou mesmo reduzí-la, representa descer degraus na pirâmide, representa a perda de importância e de reconhecimento social. Representa sofrimento mental, conflitos e emoções destrutivas oriundas de uma sensação de fracasso que surge. Portanto o melhor mesmo é continuar preso, continuar fazendo o que todos esperam que seja feito, continuar cuidando, mantendo e protegendo suas posses, sua fama e seu poder.

O mais curioso é o quanto nossa sociedade valoriza quem dedica-se a esta prisão. A tal da “meritocracia” ensina que quanto mais você se esforça, rala, se arrebenta, se estressa, consome o tempo e energia que tem (e que não tem), para conseguir manter, cuidar, proteger e aumentar o seu nível de posses, fama e poder, mais importância você tem e mais reconhecimento você merece. Mais digno você será de, no futuro em seu velório, ter alguém em seu túmulo gabando-se do quanto você foi um “prisioneiro exemplar do sistema”. Alguém que aniquilou sua autonomia, mas que esforçou-se um monte e sacrificou a vida para conquistar muitas posses e poderes que agora serão disputados por seus herdeiros. Sacrificou-se tanto que merece ter sua fama eternizada em uma plaquinha que poderá, algum dia, vir a tornar-se o nome de uma rua.

Uma pitada de sarcasmo à parte, tudo isso é uma grande reflexão sobre o quanto esta entidade chamada empresa, que nos ajuda a escalar a pirâmide das posses, fama e poder, restringe nossa liberdade. Retira nossa autonomia e nos aprisiona em padrões sociais que nos afastam de quem efetivamente somos e das coisas que efetivamente gostamos de fazer. O quanto ela rouba nosso tempo e nossa liberdade.  

Muitos talvez argumentariam sobre o quanto às empresas são importantes para a sociedade por contribuírem para desenvolvimento tecnológico e produção de bens e consumos. Mas será que são as empresas que fazem isso? Ou será que é a capacidade de criar, produzir e colaborar do ser humano? Por causa de uma ideia de organização do trabalho que surgiu a pouco mais de 150 anos atrás, nosso sistema vinculou essa capacidade de criar e produzir às empresas, como se só fosse possível fazer isso através delas. É claro, nós não podemos negar que a maioria das pessoas criam e produzem dentro de empresas, e que empresas, bem ou mal, vem cumprindo esse papel ao longo do tempo. Mas precisamos também constatar que, apesar de estarem cumprindo esse papel, existem grandes ilusões sociais por trás dele. Ilusões sociais como a escassez e a competição por importância e por reconhecimento, que aniquilam a autonomia, e consequentemente, geram pesados danos colaterais para a saúde e para a vida das pessoas que estão envolvidas com empresas. Principalmente para a vida do próprio empresário.

O novo empreendedor

Aqueles que tiveram essa ideia a 150 anos atrás ignoraram esses danos colaterais. E empreender ignorando esses danos colaterais é fácil. Empreender se aprisionando é fácil. Empreender seguindo um padrão que todos seguem é muito fácil. A humanidade tem feito isso a quase dois séculos sem muito desenvolvimento tecnológico no jeito de fazer. Pode-se dizer que onde menos se empreendeu foi no jeito de empreender. Só que hoje temos um problema: esses danos colaterais ignorados ao longo dos séculos tornaram-se imensos, tanto para o ser humano como para o planeta, e hoje não podem mais ser ignorados. Portanto, está na hora de pensarmos em novos empreendimentos que estejam fora dessa prisão chamada empresa. Está na hora de reconhecermos o quanto uma empresa aprisiona, e o quanto produzir, criar e desenvolver-se tecnologicamente através de empresas de fato gera esses danos colaterais. Quem sabe, reconhecendo isso, podemos dar um basta nesse paradigma da pirâmide e nesses indicadores de posse, fama e poder, os quais damos tanta importância que definimos nossa própria importância com base neles.

Talvez seja o momento de evoluirmos como empreendedores. De nos tornarmos empreendedores de fato, e não somente de direito. Empreendedores que possam produzir, transformar e desenvolver-se tecnologicamente de uma maneira muito melhor do que a humanidade fez até agora. Que consigam empreender sem se aprisionar. Empreender respeitando a autonomia do ser humano e a vida de todos os seres vivos. Que ao invés de empreender valorizando a escassez da posse, da fama e do poder, que possam empreender valorizando a abundância da vida e da capacidade humana de colaborar e criar, que são infinitas. Que empreender seja algo que façamos a todos momento, em casa, com os familiares, com os vizinhos, com os amigos, criando maneiras alternativas, saudáveis, sustentáveis, autônomas e colaborativas de vivermos, de nos alimentarmos, de interagirmos, de produzirmos, de aprendermos. Nada precisa ser do jeito que sempre foi. O ser humano pode fazer tudo que faz de um jeito muito melhor, muito mais inteligente, muito mais alinhado à nossa natureza humana. O ser humano pode empreender ficando no chão, com liberdade de ir para qualquer lado, e o quão distante quiser, sem precisar ficar escalando pirâmides virtuais que aprisionam a si mesmo e aos outros. Pode empreender com liberdade. Pode empreender sem empresas.