Um dos pedidos do meu filho Miguel de 6 anos para o Papai Noel foi um Lego de 100 peças. O Papai Noel achou ótimo, tanto por ser algo fácil de achar e não muito caro, quanto por ser um brinquedo que estimula a criatividade e aprimora a coordenação motora.

O Lego original é um brinquedo de peças diferentes e coloridas que permite à criança criar o que quiser. Há apenas uma regra, que é engatar uma peça na outra em um sistema macho/fêmea, e pra isso a criança tem que estudar cada peça, suas formas, suas cores e tamanhos pra ir montando e criando castelos, elefantes, aviões, etc. A criança vai montando, as formas vão surgindo, como nuvens que vão se formando e a gente acha girafa, rostos de pessoas, tartarugas… E as crianças geralmente não gostam de montar sozinhas, o barato está em fazer junto com outras crianças, todas montando juntas o mesmo sistema. E depois que montam, as crianças observam e admiram um pouco, e logo desmancham tudo pra iniciarem novamente o processo. A graça está no processo criativo e colaborativo, sem modelos, sem moldes, sem regras. Não existe nada certo nem errado, a diversão está na construção!

Só que hoje as caixas de Lego mais valorizadas e vendidas são as que vêm com modelos prontos e manuais de instrução, em que a criança vai seguindo o guia até reproduzir a imagem estampada na caixa do brinquedo. O importante é o resultado ser exatamente igual ao da foto, pois se não for está errado! E as crianças, quando vão crescendo, começam a querer essas caixas que mostram os helicópteros prontos e as espaçonaves de 500 peças. Quanto maior o modelo, maior o desafio, e assim a criatividade dá lugar à competição, quem monta mais rápido os maiores modelos sente-se vencedor. É um processo muito mais individual. E depois que monta, a criança guarda, isola o brinquedo em locais de difícil acesso pra que não haja risco de desmontar. Depois que montou tem que ficar lá exposto pra todo mundo admirar a inteligência da autora. Se alguém desmontar, é uma choradeira só!

Temos aí um forte indício de que o ser humano nasce em um mundo livre e autônomo, e vai trocando esse mundo por um paradigma de modelos prontos e manuais de instrução, trocando a natureza criativa e resiliente por comportamentos implantados de competição e controle, que se tornam condições para o sucesso no mundo corporativo e social. Aprendemos a automatizar nossas ações, pensamentos e emoções pra nos sentir encaixados na sociedade, e com o tempo acabamos por desaprender a viver em um mundo sem os roteiros prontos e as fotos do modelo de vida bem sucedida que alguém escreveu e registrou pra nós.

Já adultos, somos induzidos a montar aquele smarthphone novo, aquele carro zero, aquela casa de praia, aquele emprego público, aquela aposentadoria, coisas que estão nas fotos das caixas que compramos pra montar. É só seguir a sequência da bula que todo mundo segue, e cumprirá seu objetivo. Faça isso rápido e seja melhor que os outros! E depois que montamos nosso ideal de sucesso, isolamos tudo, privamos, botamos seguro. Temos que expor nossas conquistas pra que todos admirem nossa capacidade de vencer os desafios, cuidando sempre para que estejam em locais de difícil acesso aos outros, pois se perdermos é uma choradeira só!

Com base nessa lógica, vamos imaginar que o nosso tempo seja um grande Lego, onde cada dia seja uma pecinha com cores, tamanhos e formas diferentes. Vamos lá, um dia é igual a uma peça de Lego! Como usar os nossos dias pra montar a nossa vida então?

Podemos ser a criança descontaminada das crenças sociais de sucesso, competição e controle, e adotar a postura natural de observar e estudar cada peça pra usar de forma livre, encaixando-a na peça do dia anterior e preparando-a para encaixar a peça que virá amanhã. Não faria sentido fazer isso sozinho, nossos dias ou peças teriam muito mais possibilidades de criação se juntássemos com outras pessoas com peças diferentes. À medida que fôssemos construindo, veríamos o que vai surgindo, sugerindo o que poderia ser, rindo das idéias que surgem, ajustando peças em um grande sistema colaborativo. E desmanchamos no momento que não fizer mais sentido pra nós, ou deixamos aquela construção pra lá e vamos achar outros parceiros pra recomeçar a montar no dia seguinte qualquer outra coisa. Seria uma vida livre e autônoma, onde o valor estaria no processo, na criatividade e na colaboração entre as pessoas. Cada dia seria uma aventura diferente, uma peça pedindo pra encaixar em outra que virá amanhã, de outra pessoa que não sabemos onde está.

Ou podemos fazer o que estamos mais acostumados desde que o Papai Noel nos trouxe aquela caixa de Lego com a foto do Avião e o manual de instruções. Idealizamos uma caixa com 365 peças onde o objetivo é usar todas elas seguindo o passo-a-passo que vem junto. O importante é montar o que está programado, e deverá fazer isso sozinho, já que as outras pessoas estão preocupadas em montar os brinquedos delas e não irão ajudar você, pelo contrário, poderão roubar peças suas pra usar no modelo delas. Pode ser que na sua caixa esteja uma casa própria, uma viagem para a Europa, um celular novo, ou apenas um emprego. Cada um no seu quadrado, o importante é conseguir o resultado usando as 365 peças que tem, o mais rápido possível, pra que possa ostentar sua conquista, guardar bem guardada e começar a planejar a próxima montagem. O acúmulo de brinquedos montados com esses dias é o que importa nesse jeito de viver, e aquela sensação de vazio quando acabamos de montar é preenchida por mais uma meta, uma caixa com outra foto, e assim vamos montando sem parar pra pensar, mergulhando em um ciclo de escassez, expectativas e frustrações sem fim.

Dá pra perceber que, em geral, a humanidade tem optado pelo segundo jeito de montar nosso Lego da vida. Estabelecemos metas em um ano, ao longo dele vamos postando fotos dos brinquedos que montamos, seguindo os manuais de instrução do sucesso, e ao final do ano avaliamos se fomos vencedores, estabelecendo as metas para o ano seguinte. Deixamos de observar os detalhes dos nossos dias e de dar atenção às pessoas que estão à nossa volta pelo foco no objetivo futuro, que tem o prazo final definido lá no dia 31 de dezembro. É hora de definir o que iremos montar em 2021 com nossas 365 peças!

Só que em 2020 os fabricantes do Lego do tempo resolveram nos trolar, zoar com a nossa cara, entregando peças completamente diferentes, e sem manual de instrução. Ouso dizer que nenhum ser humano conseguiu cumprir os objetivos estabelecidos pra 2020 lá no início do ano, e isso gerou um caos na sociedade. Não sabemos mais montar sem a foto, não estamos acostumados a viver um dia após o outro, estudar cada peça, buscar nos outros os complementos pra construir junto um mundo mais feliz e sustentável.

Um vírus que pega mais que chuchu na cerca, que se comporta de forma diferente em cada organismo, que nos fez viver trancados em casa. Nossos dias mudaram completamente, peças que nunca tínhamos visto antes como ter que conviver com os filhos em casa, viver sem empregada doméstica, empresas tendo que liberar pra home-oficce. Muito imprevisto como falta de abraços, de contato, de festas. Shoppings vazios, lojas fechando. Estávamos acostumados a morrer de outra forma, não de gripe, é mudança demais! Governos querendo mostrar que sabem tudo sobre algo que nem a ciência consegue saber, está difícil demais manter o controle! Que volte logo nosso mundo estável de pecinhas quadradas fáceis de encaixar, com os 7 passos para o sucesso bem desenhados, com os nossos velhos moldes de felicidade!

Ou não…

Quem sabe agora podemos voltar a nos divertir só grudando peças umas nas outras sem compromisso com o resultado? Aproveitar cada dia como uma peça pronta pra se conectar com outra, e ir se divertindo com o que for surgindo! Porque não desmanchar esse monte de castelos inúteis que fomos montando e que hoje só nos servem de peso nas costas, e distribuir essas peças, pra montarmos juntos novos modelos de vida compartilhada, colaborativa, inclusiva? Que tal resgatar a criatividade que tínhamos quando éramos crianças, e criar o novo normal sem modelos prontos e manuais que indicam caminhos únicos e limitados?

Na real, o ano é apenas uma caixa imaginária onde pegamos 365 peças e jogamos dentro, criando obrigações e padrões de uso para os integrantes dessa caixa. Em 2020 pudemos adquirir a sabedoria pra crer que essas caixas não existem, nossa construção só termina quando não há mais dias pra se viver ou peças para montar a vida. Recebemos uma peça a cada manhã, e o desafio é entender como ela funciona e buscar a conexão até que o dia se acabe. Uma nova peça virá amanhã, e pode ser que não se encaixe na de hoje, e quanto mais peças a gente acumular sem conexão, mais peso teremos que carregar. Quanto mais aprendermos a usar agora o que temos agora, doar o que não estamos usando e estar preparado pra nos conectar com qualquer coisa que venha a seguir, mais estaremos vivendo plenamente nossos anos sem precisar de planos rígidos e limitados pra eles.

Tudo indica que 2021 será um ano de novos desafios pra humanidade, que novas peças malucas serão entregues a nós sem manual de instrução. Portanto, não adianta esperar pelas velhas peças para continuarmos montando um mundo insustentável dentro desse paradigma de sucesso e frustração que tanto tem nos gerado ansiedade, discriminação e conflitos. Vamos fazer planos para amanhã vivermos mais livres, conectados, autônomos e colaborativos. Que em nossas metas estejam o resgate da criatividade, da curiosidade e da compaixão. Que possamos fazer com nossas 365 peças o que faz o meu filho Miguel quando monta seu Lego de 100 peças. Feliz você novo em 2021!