Entre as muitas reflexões que a Covid 19 tem trazido para a humanidade, a mais recente é o dilema da vacina. É necessária ou não é ? É segura ou não é ? É verdade ou não é ?… Os dualismos são tantos que o assunto torna-se um prato cheio para a mídia e para as redes sociais, que inundam os meios com conteúdos dúbios para continuar alimentando a chama da discórdia.  

A irrelevância das opiniões

As pessoas estão tão presas em um mindset competitivo, que para qualquer dualidade que surge, imediatamente precisam assumir uma posição. Precisam se dividir entre prós e contras e precisam começar a travar uma nova guerra de opiniões. Guerra que produz mais conflitos e emoções destrutivas, aos quais somam-se inúmeros outros conflitos e emoções destrutivas produzidos pelas demais guerras de opinião que estão acontecendo concomitantemente.

Isso tudo parece até um jogo de video-game, onde sempre existe uma nova isca para o jogador morder, e então travar sua batalha esperando vitória, conquista e glória. A diferença é que no video-game é possível conseguir essa vitória porque é possível destruir, ou aniquilar, totalmente o inimigo. Já na batalha de opiniões da vida real isso não é possível. Não dá pra matar, aniquilar ou convencer todos os adversários… Eles sempre estarão lá com suas opiniões divergentes provocando e causando algum mal estar para nós, o que faz com que a batalha seja eterna… e portanto os conflitos e emoções destrutivas decorrentes, também nunca se acabem.

E apesar de nunca se acabarem, eles tem um começo. Tudo começa ao mordermos a isca e assumirmos uma opinião…         

Em nossa visão orgânica, opiniões não tem relevância porque tratam-se de interpretações e não da realidade em si. Menos ainda competir por elas porque competição caminha no sentido oposto à nossa natureza humana empática e colaborativa, e portanto é algo que só serve para nos causar aflições emocionais e conflitos, sem que nunca haja uma solução permanente e satisfatória para todos. Ou seja, ao nos abster de assumir posições e de entrar em debates de opinião nós o fazemos conscientemente. Primeiro porque consideramos opiniões irrelevantes (inclusive a nossa própria) e segundo porque preferimos convergir e colaborar ao invés de divergir e competir.

Porém, algo que nunca vamos nos abster, é de analisarmos qualquer situação de mundo, dentro da lógica e dos princípios que a Filosofia Orgânica nos proporciona, e que nos permitem lidar com qualquer coisa que aconteça, sempre de maneira convergente e tranquila.

Por isso neste artigo resolvemos abordar a questão da vacina para a Covid 19 de acordo com essa ótica, saindo da esfera dualística e procurando refletir. Pois entendemos que o grande alimento da consciência de cada um é a reflexão.

Pois então vamos à ela. Devemos acreditar na ciência e tomar a vacina para a Covid 19 ? Como a Filosofia Orgânica responde essa pergunta ?

Devemos acreditar na ciência ?

Vamos começar refletindo sobre a primeira parte da pergunta: devemos acreditar na ciência ?… Esta é uma questão muito relevante para nós, já que um dos princípios da Filosofia Orgânica está fundamentado na ciência, particularmente no conceito da falseabilidade (delineado por Karl Popper), que deriva de um ramo filosófico que dá respaldo para a teoria científica moderna, que é positivismo (desenvolvido por August Comte no início do século XIX e reforçado recentemente pelo físico Stephen Hawking). Vou tentar explicar de maneira bem simples e resumida esses conceitos que parecem um pouco complicados, mas não são.

August Comte foi um grande estudioso da ciência que marcou o conhecimento humano dividindo-o em 3 tipos de conhecimento:

  • Teológico ou crenças puras: busca-se respostas absolutas (verdades) para os porquês do mundo (causas) apoiando-se em entidades que residem somente no mundo das crenças, como deuses e suas interpretações. É o campo das religiões teológicas e das teorias que apoiam suas “verdades”.
  • Metafísica ou crença justificada: também busca-se respostas absolutas (verdades) para os porquês do mundo (causas), porém, apoiando-se na indução, ou na generalização de fenômenos pontuais inexplicados. Por exemplo, se algumas pessoas vêem espíritos (ou ovnis), então por indução supõe-se que espíritos (ou ovnis) existam e passa-se a acreditar nisso (crença justificada pela experiência de algumas pessoas), e constrói-se teorias para apoiar suas “verdades” baseadas nesse tipo de crença.
  • Positivo ou científico: não busca-se mais o porquê das coisas, mas sim o “como”, por meio da investigação empírica (sensorial), observável e concreta das relações entre as coisas do mundo. Assim, não importa mais a “verdade”, mas sim o quanto as teorias podem ou não ser estaticamente validadas pela observação empírica. Se não podem ser empiricamente testadas, tornam-se irrelevantes para a ciência. E assim consolidou-se os métodos científicos.    

É importante entender a diferença entre esses 3 tipos de conhecimento. Mas como nada na vida é preto no branco, e como tanto o conhecimento metafísico como o positivista estão calcados em algum nível de observação da realidade, tornou-se muito comum a turma mais metafísica fazer experimentos utilizando-se de métodos científicos positivos para justificar suas teorias. Ou seja, aplicam em seus experimentos o princípio da indução (que significa, de antemão, supor que algo é verdadeiro, partindo de premissas parciais), e a indução sempre afeta o resultado do experimento, tornando-o também parcial e portanto não confiável.

Quem resolveu esse problema na ciência foi Karl Popper no início do século passado, quando nos trouxe o conceito da falseabilidade. De acordo com Popper, o método e os experimentos científicos não existem para comprovar se teorias são verdadeiras ou não. Eles existem para verificar se as teorias podem ser falsas. Ou seja, nunca deve-se partir do pressuposto que uma teoria é verdadeira e usar a observação empírica para comprová-la. Sempre deve-se partir do pressuposto que uma teoria pode ser falsificável, e utilizar a observação empírica para ir descartando sua falseabilidade. Ou seja, toda teoria científica válida deve ser falsificável, deve estar aberta à possibilidade de ser demonstrada falsa por observação empírica. O conceito de Popper eliminou totalmente o problema da indução, e, até hoje é considerado uma das maiores influências do mundo científico pois tornou-se o critério que dá credibilidade a uma pesquisa.    

Como os conceitos do positivismo e da falseabilidade visam eliminar a parcialidade, as crenças e as verdades do pensamento humano, eles tornaram-se muito relevantes para a Filosofia Orgânica. Pois onde não há crenças e nem verdades, não existem prisões e nem rótulos, existem somente possibilidades e escolhas. Assim podemos voltar à pergunta inicial. Será que devemos acreditar na ciência ?

Podemos respondê-la com outra pergunta: porque deveríamos ? Acreditar pressupõe assumir que algo seja verdade. E se nem a ciência acredita em si mesma, já que considera válido somente aquilo que é falsificável, então porque nós deveríamos acreditar nela ? O fato é que, quando acreditamos em algo nós já estamos induzindo ou sendo induzidos, ou seja, estamos indo contra a própria ciência. Portanto, se quisermos ser realmente científicos, a resposta é óbvia. Não, nós não devemos acreditar na ciência…  

Porém, quando respondemos assim pode parecer que estamos desvalorizando a ciência, o que absolutamente não procede. O fato é que a pergunta não procede, não é aplicável. Portanto talvez o melhor seja substituirmos a pergunta por outra melhor: Ao invés de acreditar, será que podemos confiar na ciência ?

Realidade científica

Agora melhorou… Porém, responder essa pergunta ainda exige que tenhamos um conhecimento de como a ciência se desenrolou nos últimos 150 anos. E o fato é que, mesmo com a falseabilidade de Karl Popper, o problema da indução e da parcialidade ainda está longe de ser resolvido na ciência. Quando estudamos pesquisas científicas é muito comum depararmos com o artigo sobre uma pesquisa que desqualifica totalmente as conclusões de outra pesquisa. Afirmando que houve parcialidade, que premissas foram induzidas e dados foram selecionados. E assim aos montes !!

De acordo com a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico Mundial, que possui 37 países membros, 60% da pesquisa mundial é financiada por organizações privadas. Nos EUA o número chega a 71%. Se olharmos para esses números e compararmos com a quantidade de agrotóxicos, aditivos químicos alimentares, produtos de limpeza, beleza ou medicamentos nocivos que passaram pela aprovação científica nos últimos 100 anos e então foram introduzidos em nossa vida, vamos constatar que talvez a ciência não seja tão confiável assim… Pois em todos esses casos parece haver interesses corporativos induzindo cientistas a desenvolver, e governos a aprovar, o nosso envenenamento.   

Por outro lado existem também trabalhos científicos altamente confiáveis pois são trabalhos totalmente imparciais, livres de indução, que passam pelo crivo da falseabilidade, e que sempre nos apresenta informações estatísticas quantitativas reais, que nos permitem chegar às nossas próprias conclusões. Esta é outra característica importante do trabalho científico confiável: ele nunca vai apresentar sua conclusão de forma absoluta, aprovando, reprovando ou comprovando alguma coisa. Ele sempre apresenta dados estatísticos produzidos pela pesquisa para que assim nós possamos chegar às nossas próprias conclusões (nesse ponto temos que tomar muito cuidado com a mídia, porque mesmo que a pesquisa seja confiável e demonstre somente dados estatísticos, a mídia tende a distorcer e nos transmitir como uma conclusão).      

Ou seja, podemos comparar ciência a uma faca. Uma faca é uma ferramenta importantíssima para nossa vida, porém, dependendo da intenção pode ser uma arma perigosíssima… Ciência pode ser a mesma coisa. Dependendo da intenção que existe por trás dela, do nível de parcialidade da pesquisa, e da maneira como é apresentada, ela pode ser altamente confiável, ou não.

A Filosofia Orgânica busca muito o respaldo da ciência para todos os conceitos que desenvolvemos, desde a Teoria da Evolução e Biologia Evolutiva, passando pela Antropologia dos Caçadores Coletores, História, Psicologia Racional Emotivo Comportamental e muito mais conceitos importantíssimos que nos ajudam em nossa caminhada de consciência. Em todos esses estudos que buscamos, nós procuramos investigar a fundo para o ver o quanto são imparciais, não-indutivos e falsificáveis. Se passam por esse crivo de credibilidade científica, nós consideramos válidos e portanto, passíveis de serem utilizados e compartilhados.

Resumindo então a primeira pergunta, não devemos acreditar na ciência porque a ciência não foi feita para se acreditar nela, mas podemos sim confiar na ciência, desde façamos nossa investigação para ver o quanto as pesquisas estão livres de indução, são imparciais, falsificáveis e apresentam dados estatísticos que nos permitam chegar à nossa própria conclusão.  

Vacina, questão de consciência

Entendida toda essa questão científica, agora facilita bastante a resposta para a segunda pergunta: devemos tomar a vacina para a Covid 19 ? A resposta para essa pergunta, para nós, não é mais uma questão de ciência. É uma questão de consciência. E consciência vai da investigação, análise e necessidade de cada um. Portanto não existe uma resposta única para todos aqui, ou seja, eu só posso responder essa pergunta por mim. Não posso responder por ninguém mais.  

No meu caso, eu não fiz uma investigação profunda para ver o quanto essas pesquisas científicas que produziram essas vacinas estão livres de indução, são efetivamente imparciais, falsificáveis, e estão me apresentando dados estatísticos e não conclusões prontas… Se eu decidir fazer essa investigação, eu provavelmente irei buscar fontes imparciais para obtê-las (provavelmente jornais acadêmicos e fontes desse tipo), já que a mídia, os governos e as corporações definitivamente não são meios confiáveis para obter tal validade científica. Porém, no meu caso o mais certo é que eu nem faça essa investigação, porque quando avalio o risco e a gravidade do problema de se contrair a doença Covid 19, para a minha pessoa, ambos não me incomodam… Pra mim não é grandes coisas continuar o distanciamento social, uso de máscara e álcool gel. E se eu pegar a doença, também não vejo como grandes coisas. Então, pela análise da minha consciência, eu não preciso me preocupar com vacina…

Porém, eu não posso dizer nada em relação a outra pessoa que vive uma realidade totalmente diferente da minha. Talvez a avaliação do risco e a gravidade do problema seja muito maior para ela do que para mim. Talvez ela tenha feito uma investigação suficiente das pesquisas científicas que a deixou tranquila em relação ao trabalho que está sendo desenvolvido (o que não significa que a investigação dela seja útil para outra pessoa, mas tudo bem se for útil pra ela). Se esse for o caso, e a consciência da pessoa achar que ela deve tomar a vacina, é claro que essa pessoa deve tomar. Quem sou eu para dizer que não !!..

Enfim, em relação à segunda pergunta, se devemos tomar a vacina para a Covid 19, não existe resposta padrão. É uma questão da consciência de cada um… E o mais importante nesse caso é que a pessoa realmente aja com consciência, e não como uma marionete da mídia ou das redes sociais que vive cheia de razão ou cheia de medos. É importante que faça uma investigação profunda da confiabilidade científica, que avalie dos riscos e então decida aquilo que é melhor para si mesma ou para sua família.  

Ah, mas e se formos obrigados a tomar? Aí facilita, não precisa nem investigar rsrs… Se eu for obrigado e não tiver outra alternativa, com a consequência podendo ser prejudicial a mim ou minha família, então eu tomo… fazer o quê? Não é preciso me estressar com isso também. Vida segue sem problemas.

Agora, o fundamental mesmo, é acabarmos com essa dualidade, com esses prós e contras e esses conflitos. Procurarmos sermos mais analíticos e empáticos, conhecermos mais profundamente a realidade e simplesmente respeitarmos a consciência de cada um. Pois assim, com ou sem vacina, estaremos convergindo, colaborando e todos tornando-nos seres humanos mais conscientes. Isso sim, é o que vale a pena !