Fundamentos

Quando descobrimos e propusemos o Pensamento Orgânico como base para a Vida Orgânica e para a Organização Orgânica, o fizemos com base em nossa própria experiência prática de vida, porém buscando sempre nos fundamentar em princípios filosóficos e científicos universais que estivessem alinhados a esta nossa experiência.

Respeitamos todas as crenças e, por respeitá-las, fizemos questão de não nos basear em nenhuma delas. O que fizemos foi sempre procurar trazer as situações para o factual e analisá-las dentro de uma lógica socrática. Isso significa evidenciar fatos e convidar as pessoas observá-los e analisá-los com seu pensamento lógico e racional de maneira simples, que pudesse ser compreensível a uma criança de 9 anos de idade. Ao realizar tal análise com a mente aberta, todos os seres humanos chegam a conclusões semelhantes, independentemente de suas crença ou experiências passadas, o que nos conduz ao Pensamento Orgânico.

Nosso fundamento está focado no simples, no prático, no pragmático, no aqui e agora. Está totalmente fundamentado na observação sensorial de organismos, da natureza e do universo. Portanto, nos abstemos de qualquer conhecimento, teoria ou explicação mais complexa, dogmática, intelectual ou transcendental.

Em se tratando de referências conceituais que norteiam o Pensamento Orgânico, utilizamos tão somente aquelas que sustentam esta abordagem simples, prática e natural tanto do mundo como da vida. Utilizamos referências no campo da filosofia, no campo da psicologia e no campo da sociologia, todas referências que se complementam dentro do mesmo fundamento pragmático. São elas:

Na Filosofia: o Estoicismo, o Pragmatismo e o Positivismo.

Na Psicologia: o Racional Emotivo Comportamental (REC)

Na Sociologia: o Anarcoprimitivismo

O Estoicismo é uma base filosófica histórica presente na Grécia e Roma antiga, sobre o qual tanto a Psicologia Racional Emotivo Comportamental como o Anarcoprimitivismo estão fundamentados. Filósofos estoicistas como Epiteto, Séneca e Marco Aurélio são fortes referências para Albert Ellis, o criador da Psicologia Racional Emotivo Comportamental, assim como foram também grandes referências para filósofos revolucionários como Jean Jacques Russeau, Henry David Thoreau e Liev Tolstói. Estes, por sua vez foram referências para grandes líderes contemporâneos como Mahatma Ghandi, Martin Luther King e Nelson Mandela, e continuam sendo referências para pensadores Anarcoprimitivistas atuais como John Zerzan e Ellin Whitney-Smith .

A cadeia de pensamento que engloba todas estas grandes personalidades desde a história antiga até os dias atuais está alinhada. Existe uma forte conexão entre todos eles. E por nos identificarmos com esta a cadeia de pensamento e com seus fundamentos, tratamos de buscar maneiras de incorporá-la hoje em nossas vidas. Em resumo, estes fundamentos nos dizem o seguinte: O ser humano não é o senhor da natureza e nem o centro do universo, muito pelo contrário, tanto a natureza como o universo são senhores de si, e o ser humano é somente uma, entre infinitas outras partes que compõem tanto a natureza como o universo.

Este conceito Estoicista nos força a repensar a condição de inteligência mais evoluída (ou “civilizada”), capaz de controlar a natureza, os animais e as outras pessoas, e de utilizá-los como meios para que alcancemos nossos objetivos. Ao repensarmos essa condição, nos tornamos mais humildes e, ao invés de tentarmos nos impor sobre a natureza, passamos a observá-la, entendê-la, aceitá-la e a agir em consonância com ela. Indo mais além, este conceito nos força a repensar inclusive o uso que fazemos de nossa própria inteligência.

Afinal, será que, justamente por nos consideramos senhores da natureza, não viemos durante muito tempo utilizando nossa inteligência para tentar explorá-la, controlá-la e moldá-la à nossa maneira ? E será que não tentamos fazer o mesmo com as outras pessoas ? E será que, ao agirmos como senhores da natureza e das outras pessoas (apesar de não o sermos) não estamos gerando como consequência os próprios infortúnios que nos assolam?

Basicamente, ao aceitarmos que a natureza e o universo são soberanos, e infinitamente mais sábios que nós, passamos então a observá-los com mais curiosidade, passamos a utilizar nossa inteligência para aprender com eles, e não para dominá-los. Passamos a observar muito mais o nosso momento presente. Passamos a distinguir melhor entre aquilo que podemos exercer poder, e aquilo que não podemos. Passamos a viver sem expectativas em relação ao mundo ou às outras pessoas. Passamos a conseguir dominar nossas emoções negativas. Passamos a confiar muito mais em nossa criatividade e em nossa resiliência para enfrentar e aprender com desafios, e passamos a viver assim uma existência muito mais tranquila e, ao mesmo tempo, alerta.

A Psicologia Racional Emotiva Comportamental, na figura de Albert Ellis, incorporou a filosofia estoicista à terapia psicológica com o objetivo de eliminar distúrbios comportamentais, mudar crenças, desenvolver controle emocional das pessoas e criar assim relacionamentos mais saudáveis e energizantes. O TREC nos torna cientes e responsáveis por aquilo sobre o qual temos poder de intervir, e ao mesmo tempo, imunes ou resilientes àquilo sobre o qual não temos poder de intervir. Desenvolve a nossa sabedoria, e nossa capacidade de fluir com a natureza.

E o Anarcoprimitivismo veio reforçar o conceito estoicista no âmbito sociológico ao evidenciar através de estudos antropológicos e arqueológicos, que nós, seres humanos, já vivemos durante mais de 200.000 anos em total consonância com a natureza e com o universo, cientes que éramos parte integrante deles. Durante este período conseguimos viver plenamente felizes, com autonomia, livres de julgamentos e livres de qualquer tipo de violência ou doenças. Até que então, há cerca de 10 mil anos, resolvemos virar os “donos do pedaço”. Resolvemos cercar as terras, controlar as plantas, domesticar os animais e construir hierarquias de poder uns sobre os outros. Passamos a julgar e rotular as pessoas como melhores e piores e passamos a usar nossa inteligência para alimentar esta a necessidade de nos tornarmos cada vez mais senhores da natureza, do mundo e das outras pessoas. E desde então estamos continuamente e dolorosamente sofrendo as consequências disso.

O Pensamento Orgânico nos leva a tomar consciência de todas estas ignorâncias que nós, seres humanos, conseguimos cometer e continuar praticando desde o dia em que nos tornamos “seres civilizados”. Tomar consciência de que na realidade não temos, e que portanto não faz sentido exercermos, poder algum sobre a natureza e nem tampouco sobre as outras pessoas. E sempre que assim o fizermos, sofreremos consequências não desejáveis.

Estes 3 fundamentos que sustentam a filosofia orgânica nos ajudam a tomar consciência disso, e também a incorporar em nossas vidas, cada vez mais, atitudes coerentes com esta consciência. Em uma organização, o Pensamento Orgânico significa tomar consciência que ela será muito mais feliz e duradoura a partir do momento que ela passar a funcionar em consonância com a sabedoria da natureza e do universo, ao invés de continuar tentando controlá-los ou dominá-los de acordo com o desejo egoísta de seu líder.

Em suma, o Pensamento Orgânico está fundamentado nos próprios organismos, na própria natureza da vida, do mundo, e do ser humano, que é simples de entender quando nos propusemos a isso com a mente aberta e tranquila. Não há necessidade de intelectualizar e nem de buscar explicações em teorias complexas sobre sistemas, sobre a mente humana ou sobre comportamentos. Isso não nos torna mais orgânicos. Assim como também não há necessidade de crer em coisas espirituais, místicas ou dogmáticas para tornarmos mais orgânicos.

Muito pelo contrário, basta somente compreender o que é simples e factível, ou seja, aquilo que a mera observação dos fatos naturais nos apresenta. E lembrar que esta compreensão é possível a uma criança de 9 anos.