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  • Transição crocante

Quarta-feira, 29 de março, 17h30 Café com Andressa.

Minha agenda lembrava que falaríamos sobre a oficina Transição,  criada com base no livro Quando o hoje já não basta, para a  qual Andressa forneceria pães artesanais.

Riso fácil, jeito simples. Ela é assim. Cobre parte do rosto com as mãos quando sorri. Conta seus causos sem enrolação. Estudou desenvolvimento de web. Trabalhou na área. Mas um dia tudo mudou. Um dia o chefe chegou e disse: “Você tem muita dívida, menina? Contas pendentes?” Ela negou. “Nada?”, insistiu ele.  “Então o que você está fazendo aqui?”

Naquele exato momento caiu uma fichinha em seu colo. “O que estava fazendo ali?”. Pensando sobre, tomou a decisão. Ensacou a viola, ou melhor, limpou as gavetas da mesa e partiu. Ficou solta. Sentia-se livre. Leve. A convite de uma amiga viajou várias vezes para os Estados Unidos. Quando eu pergunto: “É Andressa! E o teu inglês já estava afiado?” Ela nem pensa: “Eu não falo inglês na verdade. Eu me viro”.

Entre risadas e mais um gole de café, descubro que foi nos Estados Unidos que se encantou pela fermentação natural, base dos seus pães. A partir de lá, começou a estudar o tema pela internet, em cursos presenciais, passou por mestres em São Paulo e até no exterior. Descobriu-se. A paixão pelos pães cresceu igual a fermento bom em dia quente e transbordou em forma de amor.

Quando questiono sobre os segredos da arte dos pães, ela me fala do mais profundo da alma: “O principal ingrediente é a paciência”. “É preciso cultivar a espera, respeitar o tempo”, reforça. O tempo. Ah o tempo! Senhor da vida atual. Quem consegue comandá-lo com maestria? Nossa artesã reverencia-o, trata-o com respeito. “Um bom pão, um excelente panetone, tudo depende do tempo”.  Interesso-me. Traço um paralelo com a vida, surpresa sobre como a arte de fazer pães poderia ser tamanha fonte de aprendizados. Ficamos em silêncio. O assunto repousa. Degusto.  Já imagino uma oficina de pessoas aprendendo a fazer pães crocantes, e mais que isso, lidando com o tempo, a paciência, a espera. Que viagem! Seria lindo.

Olho pelo vidro da padaria. É final de tarde. Os carros correm na estrada de asfalto ao lado do nosso café. Faz sol ainda. Fraquinho. Típico dia de outono.

O silêncio é interrompido por um suspiro. Quando ela se aprofunda: “É bem importante aceitarmos também”. Não compreendo. Mas decido não questionar. Ela prossegue: “Aceitar que apesar de seguir a receita à risca, que mesmo honrando o tempo, a espera, tudo pode desandar. É difícil lidar com o imprevisível, com o erro”.

Sim, eu penso. É muito difícil em qualquer âmbito da nossa vida. E nada podemos fazer. Até porque o imprevisível é o que temos pela frente todos os dias. O que vai acontecer no próximo minuto? O que vai acontecer amanhã? Não sabemos.

E o erro? Nosso ego, nosso medo, os julgamentos, a autocrítica, o desapontamento. Surgem todos de mãos dadas com o erro.  Aceitar o erro faz parte da nossa evolução nessa jornada. Afinal, por que se martirizar com o erro, se ele pode nos ensinar tanto?

Falamos de viagens. Divagamos sobre o Chile. Compartilhamos o gosto pelo Blues. Até que a primeira cadeira começou a ser recolhida rimos muito. Embaladas pela possibilidade de um encontro em torno da música, nos despedimos. Já era noite. Minha agenda marcava Café com Andressa, mas poderia ter sido…Transição crocante, como um pão quentinho….feito à mão, é claro.

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